O texto que vou escrever não é inédito. É uma reflexão dos meus 30 anos, da mesma forma que muita gente já reflectiu, e passou dos pensamentos às palavras. Retratei-me em muita coisa, e decidi dar a conhecer as minhas lembranças.
É certo que há muitas coisas que já se apagaram da minha mente. Chama-se a isto memória selectiva, em que a nossa memória "apaga" a informação menos importante, gravando aquela que nos é mais útil. Talvez por isso mesmo, existam pormenores que já não me recordo muito bem, mas na generalidade, no cômputo geral, sim, há coisas que me são muito familiares.
Assisto com alguma incredulidade ao facilitismo que hoje em dia prevalece nas novas gerações. Tive o meu primeiro telefone portátil já tinha carta de condução e já andava na faculdade, o que rapidamente me coloca com 18 anos. Hoje em dia, rara é a criança, sim, criança que com 10 anos não tem um "lélé". Isto faz-me alguma confusão. Alguma "muita". A razão que mais oiço como justificação é de que os tempos mudaram, e os miúdos precisam de estar em contacto com os pais..Ou serão os pais que têm de controlar os miúdos? Acho que é mais isto..
Na minha infância, adolescência, não havia telemóveis. Se queria ligar a A ou B, ligava para casa, e cordialmente falava com o pai, mãe, irmão ou irmã, ou quem quer que me atendesse o telefone. Fi-lo milhões de vezes, saí à noite, tarde e dia, e graças a Deus, os meus pais nunca necessitaram de um telefone para saber onde andava. É um pouco a conduta e valores dados aquando do crescimento do (a) menino (a). Coisa que hoje em dia não se verifica.
Pertenço à "colheita" de 1975. Uma colheita que já nasceu após o 25 de Abril, mas que ainda assim respeita determinados valores, respeita as pessoas mais velhas, e sobretudo, tem uma postura afirmativa perante a vida. Salvo raras excepções, de pessoas que conheço e que enveredaram pelo caminho da droga, todas as outras pessoas singraram. Melhor ou pior, fizeram pela vida. Pertenço ainda à geração de "mancebos" que tinham de ir ver aos editais da tropa, na Junta de Freguesia da área de residência qual o dia da Inspecção Militar. E que tinham de passar o dia ali no Quartel da Ajuda, em questionários acerca da nossa intimidade, após o grosso do grupo ter sido separado por nível de escolaridade. Era giríssimo, porque aqueles que tinham frequência universitária constituiam um grupo mínimo.
Comecei a sair com 14/15 anos. "A" noite no Bairro Alto. Mais tarde, "Zona +", "Gringo´s", depois "Bananas", passando pelo famoso "Blue´s Café", "Indochina", "Dock´s", entre muitos outros locais da noite lisboeta, e zona de Cascais. Mas foi uma fase. Foi uma fase que ainda durou uma década (ou pouco mais) em que vivi com intensidade a noite. Esperar que o final de semana chegasse rapidamente, para sair, para me divertir e beber uns copázios.. Como já escrevi noutro texto, mudei radicalmente essa postura.
Havia algumas coisas que sempre me deram prazer, e saliento 3: Jardim Zoológico, Feira Popular e aquário Vasco da Gama. São três locais que a muito "puto" ou "miúda" hoje em dia dizem pouco, ou nada. Conhecem de nome. No meu caso, aviva-me a memória para os momentos excelentes que passei em qualquer um dos 3 sítios, e das lembranças que tenho. Da excitação que me assalta quando me recordo das vezes que vi os gorilas, ou os leões no seu território, ou das girafas, ou do elefante jurássico que toca o sino... Ou dos crocodilos, que sempre que lá ía (ao Zoo), me pareciam estar parados no mesmo local, ou do reptilário, com as várias espécies de cobras, enfim, imensas coisas. Da mesma forma que o Aquário Vasco da Gama me relembra as tartarugas e peixes exóticos que na altura lá existiam...São tudo lembranças da minha meninice..
Revivi há pouco tempo estas lembranças, com uma visita ao Zoo. Gostei imenso, embora as coisas estejam muito diferentes. Mas foi gratificante.
Ainda sou do tempo de ir para a baixa nos autocarros de dois andares. Naqueles que hoje em dia se vêem pela cidade para as visitas turísticas. Com o "chão" em madeira corrida. Claro que ía sempre para o 1º piso, por cima da cabine do condutor..Era o delírio!
Sou da geração em que houve o culto pelo carro de rolamentos e mais tarde pela bicicleta (e para alguns das motas). A bicicleta sempre a brilhar, como se fosse um carro cheio de cromados... Feliz ou infelizmente, cá em casa nunca entraram motas. Mas entraram bicicletas, e com 18 anos tinha carta e carro novo. Foi melhor assim. Tive amigos meus que morreram em acidentes de mota, e outro grande amigo num acidente de carro. Faz parte do nosso percurso cá na Terra...
Com 30 anos é muito triste aquilo que penso recorrentemente. A nossa sociedade perdeu valores, perdeu o respeito pelo próximo, não há qualquer tipo de exemplo para as camadas mais jovens..A diferença entre a nossa sociedade e uma sociedada anárquica, na minha opinião, é muito vaga. Desde a justiça que não existe, desde a equidade social que pura e simplesmente não é retratada, ou passando pela segurança e pelos "tachos" ou "jobs for the boys"...É vergonhoso, e são estas coisas que penso, mas julgo que deveria fazer como a maioria das pessoas da minha geração ( e mesmo de anteriores), e não pensar. Não me cansar a pensar nisso, até porque devo ser dos poucos a pensar, e a fazer este tipo de análise. É mais fácil andar para a frente..Mas cada um sabe de si, como se costuma dizer.
Há uma quantidade enorme de séries da minha infância que estão a ser reposta no mercado. O "Verão Azul", "O Corpo Humano", "A- Team", "Missão Impossível",entre variadíssimos outros. É a tal sensação de revivalismo. E de agrado, consequentemente. Vi há pouco tempo no cinema "Os Duques de Hazard", ou "Os 3 Duques" e mais uma vez revivi boas lembranças...De Sábado à tarde, quando dava esta série na tv, seguido do "Automan", ou "O Homem da Atlântida", ou no Domingo à tarde, com "O Justiceiro"...
Nunca fui muito fã de futebol, mas gostava do fanatismo de alguns adeptos de Sábado à noite, ou de Domingo à tarde. Gosto do movimento, da côr, e claro, das crenças e teorias futebolísticas de cada adepto. Regra geral, nem quando era mais novo, nem actualmente, consigo dizer o nome de todos os jogadores do plantel de qualquer um dos 3 maiores clubes..quanto mais saber o nome dos jogadores de todos os clubes...
Foi também no final da minha adolescência que ganhei o gosto pelas forças armadas. Tropas especiais, o conceito de respeito, afirmação, responsabilidade, conduta cívica, dever, aprumo..a exigência do físico...Não segui carreira militar porque na altura era novo, e não sabia bem o que queria. Mas são opções de vida, e hoje em dia, teria feito as mesmíssimas opções. Não me arrependo de nada.
Chego é rapidamente a uma conclusão...quem me dera ter 5 anos!!
segunda-feira, novembro 14, 2005
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2 comentários:
30 anos são uma vida... e em que cada dia faz parte de um livro que vamos "escrevendo" até ao dia em que fechamos os olhos...
Todos temos as nossas recordações, umas que nos fazem sorrir e que nos aquecem a Alma, outras que nem por isso!
Tu, ao contrário da maior parte dos nossos amigos e das pessoas que nos rodeiam, tens uma predisposição natural para analisares tudo aquilo que se passa à tua volta! Isso é muito bom.. Mostra que não te alheias do Mundo, que não pensas só no teu próprio umbigo e que a Vida não te passa ao lado!
Já temos falado muitas vezes acerca de algumas das coisas que referes neste teu texto, e contigo tenho aprendido a deitar um olhar mais atento a muitas dessas coisas..
Quanto aos valores que a nós nos incutiram mas que na geração actual se perderam, cabe-nos a nós (como pais da geração que se segue) voltar a incluí-los na educação que daremos aos nossos filhos e, com isso, tentar fazer com que os verdadeiros valores voltem a "estar na moda". Sim! Porque é disso que se trata... Hoje em dia ser cavalheiro, educado, gentil, não está na moda! É coisa "de menino da mamã"...
Teremos que ser nós e a nossa geração a alterar isso e a ressuscitar essa "moda" de ser bem educado.
Para acabar, quero dizer que senti uma nostalgia boa ao ler as tuas linhas, mas CLARO que vais já dizer: "Oh! Tu não sabes... Não é do teu tempo!!" :)
Tenho de concordar com a Pi em dois aspectos: em primeiro lugar, a nostalgia muito boa e o sorriso que me troxe ler-te falando do "Verão Azul", dos "3Dukes", entre outros programas que fizeram parte, igualmente da minha meninice. (O peso dos 30 nem é assim tão pesado :)
Mas a questão já não desperta tantos sorrisos quando se trata de falar da perda de valores a que se vem assistindo de há uns anos para cá. E concordo com a Pi, na medida em que ela refere que nos cabe a nós, futura geração de pais e educadores, voltar a incutir todos esses valores que estão agora, não só em falta, mas igualmente, invertidos e adulterados.
E penso que isso acontecerá com alguma naturalidade e, arrisco dizer, facilidade, uma vez que, embora hoje o mundo gire em torno do consumismo excessivo, de um facilitismo assustador aos vários níveis, a nossa geração é bastante consciente relativamente aos erros que não devem cometer. Saíu-nos do pêlo, desculpem a expressão, muita luta, estudo, estabelecimento de objectivos, desgostos, crenças e lutas por determinadas causas, sonhos.
Julgo ser a inversão de valores e todo este facilitismo o preço (alto) a pagar pelo desenvolvimento, pelo progresso.
Mas mantenho a esperança e a crença de que à geração vindoura, serão incutidas as noções de responsabilidade, entreajuda, solidariedade, verdade e honestidade. Não nos esqueçamos que uma boa parte daqueles jovens e algumas crianças que hoje se rebelam e que batem o pé porque não possuem os ultimos gritos da moda e afins, são fruto de uma geração de lares desfeitos, em que (erradamente) a aquisição material funciona como compensação à lacuna emocional. Eles apenas reflectem o que aprenderam.
Não que a nossa geração seja melhor, é apenas diferente e podemos e devemos sentir-nos privilegiados pela infância e juventude que tivémos, por podermos saír à noite sem nos preocuparmos com assaltos ou coisas do género.
O mais importante é passarmos a mensagem a quem agora está a começar a dar os primeiros passos na vida e áqueles que ainda estão para vir pisar esta Terra. A nossa geração lutou sempre e continua a lutar e a acreditar que os valores podem ser repostos e melhorados e sem dúvida, salvo algumas excepções, os nossos filhos serão reflexo do nosso aprendizado, uma vez que estamos mais alerta para, talvez pioneiramente e de forma surpreendentemente inusitada, aprendermos com os erros dos outros.
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