domingo, setembro 30, 2007

Mediatizações

Não será de agora que entendo que os media têm uma facilidade enorme (e que lhes é atribuída conscientemente) de catalagar alguém de "bestial" a "besta" em menos de nada. Falo objectivamente das últimas manchetes dos diários/semanários, e mesmo tempo de antena das várias estações televisivas. Vejamos por ordem de "importância":

1) Caso Maddie

Sem dúvida um episódio que teve início envolto num misticismo enorme. Sem qualquer margem para dúvidas, qualquer pessoa, desde Portugal, passando pela China recôndita e terminando no Canadá, ficou sensibilizada para este flagelo. Há cinco meses, naturalmente. As provas indiciaram outros aspectos menos explorados na investigação, em consequência da utilização de cães pisteiros, especialmente treinados para detectar odor de cadáveres. Como não poderia deixar de ser, e tendo uma confirmação de sensivelmente 80% que apontava inquestionavelmente na culpabilidade dos pais, veio noticiado que nem sempre os cães são eficazes. Curioso, no mínimo;

Flagrante também será a avaliação da Polícia Judiciária em todo este caso, feita pela imprensa estrangeira. Considerada uma das melhores polícias mundiais, e estando a envidar todos os esforços no sentido de dar resposta a um caso mediático com a projecção deste, já foi alvo de muitas críticas pela imprensa estrangeira, muitas delas sem qualquer tipo de substracto. Talvez por agir segundo o procedimento, talvez pelo facto de não querer levantar falsos testemunhos, optando por uma via mais sensata, mais ponderada, e explorando todos os ângulos das suspeitas, antes de emitir comunicados ou dar conferências de imprensa;
Quanto aos pais, não tenho muito a dizer. Espero sinceramente que consigam justificar cabalmente o porquê do sangue dentro de casa, o sangue no carro e que efectivamente justifiquem de forma coerente, sustentada e acima de tudo genuína alguns aspectos menos claros, como sejam as versões divergentes dos amigos relativamente aquela noite, bem como o facto desses mesmos amigos se terem remetido ao silêncio.
2) Caso Mourinho

Detesto futebol. Abomino, mesmo. Mas entendo que seja um desporto que possa dar prazer assistir, e que seja motivo de conversa para uma semana inteira. Desde que mais de 3 décadas que sei que assim é. E sei disso. Não gostando de futebol, respeito quem gosta, e admito que algumas combinações possam ter de ser adiadas para um horário "pós-jogo", na medida em que aqueles que gostam do desporto rei saciem o teu gosto. Parece-me pacífico.

O que não me parece razoável é que um treinador de futebol de um clube qualquer, seja capa dos principais jornais. Menos razoável ainda me parece, e me suscita alguma curiosidade, em perceber a razão de jornais como o "The Times", tidos como perfeitamente conservadores fazerem capa desta notícia. Basicamente, um clube inglês que conquistou um título que há 50 anos não conquistava...e? Não será essa a obrigação do treinador, enquanto responsável pelo treino de uma equipa, e ao serviço de um determinado clube? Não será isso que está implícito contratualmente? Não entendo. Faz-me uma grande espécie.

Pior ainda, quando um comentador televisivo é convidado a partilhar a sua visão relativamente a um determinado assunto, que por sinal até diz respeito à realidade nacional, na medida em que só por acaso até versava a questão das eleições internas do maior partido político da oposição. Não acho normal que interrompam o directo da entrevista, para veicular a notícia do supracitado treinador a chegar ao aeroporto. Acho deprimente, e sinceramente, creio que há uma inversão de valores. Não creio, tenho a certeza, até porque o responsável pela grelha da informação deste canal televisivo, desvalorizou a reacção do comentador televisivo, aludindo ao carácter intempestivo e desproporcionado. Não me parece que tenha sido. Muito pelo contrário. Foi adequado.
Preocupa-me que este tipo de exemplos possam massificar-se. Preocupa-me que as temáticas realmente importantes sejam relegadas para um plano secundário, em prol da obtenção do "share" ou mesmo negligenciadas com vista à obtenção de tiragens referenciais.
Acredito que a solução não passe pelo "lápis encarnado", mas creio que em alguns casos, deveria existir um organismo regulador deste tipo de situação. Aliás, tem mesmo de existir, porque assim não sendo, existe o real risco de que o panorama de descontrole e desresponsabilização dos orgãos de comunicação social, derivado de uma má prioritização dos blocos noticiosos.