É com uma enorme alegria que escrevo sobre um tema que sempre fez as minhas delícias. Embora nunca o tenha feito, gosto muito de ver pescar e invejo verdadeiramente a infinita paciência que algumas pessoas têm em ir ali para a Marginal ou Padrão dos Descobrimentos, com a cana de pesca e a meio da madrugada.
Há contudo outra abordagem que explico seguidamente. Baseia-se no facto de alguns homens terem conseguido "conquistar" a anuência da mulher para esta actividade. Passa pelo o terem sempre feito ao longo dos séculos. Ou de, em algum momento terem levado as respectivas algumas vezes à pesca, e as mesmas não quererem ser otárias em ir para o frio (e madrugada) mais nenhuma vez. Parece-me natural. A partir daí está conquistado esse direito.
É lógico que ninguém, em posse de plenas faculdades mentais, espera conseguir pescar um robalo ou um peixe-espada ali no murete da Marginal. Ou por outra, pescá-lo enquanto o seu olho irrequieto vai observando os carros com os vidros embaciados e aos solavancos ritmados que por ali costumam estar estacionados. Seria certamente um fartote e claro que a "pesca" teria muito mais emoção do que fitar o mar.
Acredito que esta concordância por parte das mulheres, como tantas outras, é algo que se conseguiu com continuada insistência e afinamento de tácticas de persuasão masculinas. Estamos a falar de sapiência masculina secular. Tornou-se igualmente necessário o desenvolvimento de certos e determinados artifícios especiais, sob pena da mulher achar que está a ser trocada por outra mais nova e com corpo melhor. Uma das tácticas passa por sugerir à mulher um passeio ou uma ida ao cinema ou uma discoteca. A mesma aperalta-se e a dada altura do caminho, trocar-lhe as voltas e dizer se está a ouvir o chamamento do mar. E explicar que o mar exerce sobre nós um chamamento especial. E que a voz que ecoa na nossa cabeça nos diz que "aquela" vai ser uma boa noite de pesca. Acredito piamente que esta técnica resulte. Uma única vez. Mais que isso dá azo a internamento com divórcio junto...
A partir deste momento, em que a mulher já não nos quer acompanhar nas pescarias, e com continuada astúcia, todo o nosso caminho passa a estar aberto para as "pescarias". Pescarias essas, que como é óbvio, terminam num bar. Com os amigalhaços, a beber umas valentes cervejolas, comer umas boas bifanas no pão e a falar de mulheres e carros. É vital que estas "pescarias" durem até por volta das 0600H, altura em que a lota já recebeu o peixe verdadeiramente pescado e por quem desta actividade económica sobrevive.
Antes de ir para casa é obrigatório passar pela lota. Procurar trazer o maior peixe que lá existir. Aqui é imperativo que se conheça muito bem a Dona Rosa. Nem que isso faça com que tenhamos de dar dois beijos naquela cara enrugada com o tempo, e em troca as nossas faces sejam picadas pelo seu bigode forte... Em alternativa, poder-se-á esperar que qualquer traineira regresse da faina e começar acenar vigorosamente a partir de terra quando a mesma fôr avistada, correndo de um lado para o outro. Assim que a mesma atracar, ser logo prestável, ajudar os pescadores (por esta altura atónitos, mas não interessa) a descarregar as cestas e as redes de pescado. No final comprar todo peixe e despedir-se de forma efusiva. É muito importante estabelecer relação de amizade próxima neste momento para com estes trabalhadores para que numa situação futura nos voltem a auxiliar.
Chegar a casa com o ar mais cansado que se conseguir...esboçar um sorriso e apresentar o produto da nossa noite de pesca!
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