Quis o destino que o meu percurso académico experimentasse a passagem pelo mundo farmacêutico, tendo feito o meu estágio profissional (pós-licenciatura) numa farmacêutica de renome. Em concreto, no departamento de Qualidade, Ambiente e Segurança do mesmo. Uma boa experiência, é certo, e que me permitiu indubitavelmente deslindar aquilo que serão os interesses dos grandes grupos farmacêuticos.
No meu caso, e se ingenuamente tinha ideia de que alguns referenciais normativos e legislação eram exigentes....as normas e procedimentos utilizados nas farmacêuticas ultrapassaram tudo o que conhecia na altura. Especialmente em meio de produção, em que a esterilização e ambiente asséptico "andam de mão dada" e têm necessariamente de estar sempre presentes. Há toda uma série de regras que têm de ser respeitadas, normas das casas-mãe que têm de ser seguidas....e claro..objectivos comerciais que têm de ser atingidos.
Momento de falar de uma actividade profissional que sempre me fascinou. Os delegados de propaganda médica. Desde que me conheço que sei ser uma das actividades mais bem remunerada que existe. Sem dúvida alguma. Bons vencimentos, conhecimentos privilegiados na classe médica, bons carros, cartão de despesas...entre outras regalias. Fui igualmente tendo, ao longo dos anos um feedback por parte da classe médica existente na minha família, e relativamente aos mesmos, na medida em que há reuniões diárias, com os vários delegados das várias farmacêuticas. A minha opinião só pode ser uma - são pessoas escravizadas. Tal como em tantas outras profissões, trabalham por objectivos. Quanto mais venderem..mais ganham. Quanto mais ganham..mais querem ganhar. E pessoalmente, acho que este "mais querem ganhar" e "ter algum tempo para a família" não jogam na mesma frase. Nem nesta actividade nem em qualquer outra. Mas nesta em especial...até porque se ganha muito bem.
Por outro lado, o ser delegado de propaganda médica já "deu mais" do que dá hoje. Não esquecer que existe a concorrência feroz dos genéricos. E que veio para ficar. Não faz sentido comprar um medicamento que custa 40 euros, quando existe outro, exactamente com o mesmo princípio activo que custa 9 euros. É um pouco esta conta de merceeiro que se passou a fazer no balcão da farmácia, conjuntamente com o técnico farmacêutico (que por lei é obrigado a elencar os genéricos disponíveis e com o mesmo princípio activo). Adicionalmente, não é qualquer pessoa que consegue esperar horas pelos médicos, correndo (não raro) o risco de não conseguir vender nada.
É neste grupo de pessoas que as farmacêuticas se apoiam e escravizam para obter lucros de mais de 10 zeros. O valor irrisório que se paga a um delegado, e que poderá ser tido como um valor salarial bastante acima da média, não paga o tempo que passa fora de casa. Que não vê a família. Ou o ter de sorrir para um médico que está mal humorado. Ou ainda o ter de esperar pacientemente 4 horas para ser ouvido pelo médico...entre outras coisas. É preciso ter uma estrutura mental muito bem organizada para o conseguir. E nem toda a gente o tem. Mas mais cedo ou mais tarde...a selecção natural do mundo do trabalho (neste meio), acaba por fazer a triagem.
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