Existem vários tipos de restauro. Desde o restauro da arte sacra, de monumentos, de mobília, e entre outros, de automóveis. E é sobre este último assunto, o restauro de automóveis, que partilharei o meu ponto de vista.
Começo por dizer que desde sempre quis ter um VW carocha. Várias foram as abordagens que fiz à minha madrinha, para que me desse aquele carocha que tinha (e que continua a ter) a apodrecer debaixo de um telheiro, mas só Deus (e os meus tios) saberão as razões secretas para nunca me terem feito a vontade e quererem ter uma sucata. Lembro-me de ter escrito uma carta formal, informando que comprava o carro. Sem êxito.
Muito triste e sentindo-me incompreendido, comecei activamente à procura de um belo e pujante exemplar. Cheguei a ir ver vários exemplares, mas a minha reacção era invariavelmente a risada na cara dos pretensos vendedores. Ou porque os carros tinham acessórios modernos (o que mata por completo o conceito de automóvel clássico), ou porque o conceito de "necessita de restauro" pecava por defeito, i.e., deveria ser qualquer coisa do estilo..."carro-sucata-com-buracos-do tamanho-de-vacas-feitos-aquando-da-passagem-num-campo-de-minas-vende-se".
Até que há pouco mais de 7 anos descobri um. Branco pérola ali na zona do Cartaxo. Entusiasmadíssimo fui ver o carro. Estava estacionado numa garagem, num piso subterrâneo. Lembro-me que quando o mesmo foi ligado pelo dono, para o tirar para o exterior, pensei de imediato que viesse trovoada. O escape que tinha era fisicamente igual ao de uma Harley Davidson e conseguia fazer mais barulho que uma destas motas em aceleração máxima. Pormenor sórdido..mas não seria isso que me iria demover da minha compra. Lembro-me de ter dado uma volta com o carro...fiquei rendido e passado uma semana tinha-o na minha garagem. Era finalmente o 12º proprietário deste vw carocha.
Ainda no caminho para Lisboa, vindo do Cartaxo, e a fazer uma barulheira que só eu sei...resolvi tentar a minha sorte numa inspecção periódica obrigatória. O máximo que me poderia acontecer seria ver um carro quase quarentão ser apreendido pelo escape que tinha. Para meu espanto passou à primeira. Estamos a falar de um carro com quase 40 anos, com modificações visíveis e recentes, e que quando foi feito o teste ao sistema de travagem pensei que a carroçaria se desconjuntasse do chão. Não me deixou ficar mal.
Olhando para trás, penso que poderia ter seguido o conselho do meu primo João Pedro que comigo foi levantar o carro. Devia ter aproveitado mais o mesmo. Devo ter conduzido meia dúzia de vezes, sendo que uma delas, e após ter atestado o depósito de combustível, o mesmo vertia o líquido para uma zona da chapa que estava partida, com as devidas consequências que poderiam ter tido lugar, acaso houvesse uma faísca... Sempre que mudava de direcção vertia combustível para susto e visível preocupação estampada na cara dos demais utentes da via.
Decidi então que era altura de arregaçar as mangas e começar a pensar em tornar o meu "menino" bonito. Assim pensei, e assim o fiz. Desloquei-me a uma oficina de bate-chapa e da qual tinha referências. Achei um roubo o dinheiro que era pedido pelo chapeiro, que resumidamente me iria desmontar todo o carro, lixá-lo e pintá-lo. Talvez tenha contribuído o facto de não ter gostado do sítio ermo onde a estufa de pintura estava localizada. E pensar que o meu "mais-que-tudo" iria ficar nas mãos daqueles artistas...Reflecti...e recusei o orçamento. Iria eu mesmo fazer o restauro, com as minhas mãos.
Passados 2 meses estava a desmontar o carocha. Foram vários os finais de semana que com a ajuda de dois amigos (habilmente convencidos), ía subtraindo peças ao carocha. Desde o dia em que o coloquei naquela garagem para desmontar...nunca mais trabalhou. Ía por vezes comprar peças, esperançado que o momento para as colocar estivesse para breve. É claro que não estava. O carocha ficou totalmente desmontado, qual gafanhoto. Chegou a uma parte da desmontagem em que não conseguimos separar a carroçaria do chão do carro, pelo que, ficou com um aspecto assustador. Uns largos meses mais tarde houve um assalto à garagem onde estava o carocha e estou em crer que os assaltantes terão ficado assustados com o aspecto do meu projecto, na medida em que não tocaram num parafuso que fosse!
Ainda cheguei a levar lá alguns bate-chapas, para pegarem no trabalho e voltarem a montar- Os preços que pediam eram obscenos e naturalmente não aceitei. Passados dois anos resolvi que não ía mais continuar. Não porque tivesse deixado de ser aliciante, mas sim porque a minha vida deu uma série de voltas e porque era necessário igualmente vagar a garagem. A disponibilidade de tempo também foi afectada.
Vendi o carocha tal como ficou a um grande Amigo. E assim...posso ir vendo o mesmo sempre que quiser.
Próximo Tema: Palhaços
1 comentário:
Não sei se alguma vez te contei... o meu primeiro carro foi um carocha. Sim e dos antigos! AL-43-13 (jamais me esquecerei da matrícula,)1300 de cilindrada, cor verde, um dos raros exemplares que eram utilizados pelas noivas de Santo António. Uma autêntica relíquia... e claro o menino dos olhos do meu pai!
Como não podia deixar de ser o carocha seria o presente ideal para oferecer à sua menina (eu)que em breve iria ser encartada!
E aqui começa a história do restauro... infelizmente, termina com um final muito trite.
Para que eu ficasse com um carro novinho em folha o meu pai teve a brilhante ideia de mandar restauraro carocha a um amigo de longa data, de profissão, mecânico. Ele sabia que eu adorava aquele carro. Não quero mentir, mas o carro esteve "nas mãos" do tal mecânico mais de um ano.Todos, eu em especial, estavamos numa grande expectativa para ver o mais que tudo da família novinho em folha.Recordo o dia em que o carocha regressou a casa como um dia de felicidade! Era inacreditável: estofos novos,pneus novos, pintura nova (igualmente verde mas um verde alface e metalizado), cromados impecáveis e
brilhantes.O carro chegou poucas semanas antes de eu ter a carta. Claro está que os meus treinos caseiros para o exame de condução foram ao volante do meu novo carro. Dias antes de dazer o exame de vitimas de uma verdadeira tragédia... Como eu ainda não podia conduzir, o meu pai não raras vezes levava o carocha para o trabalho. Certo dia, ou melhor certa noite - nesse dia o meu pai trabalhou de noite - fomos surpreendidos fomos a fatdiiga notícia: o meu chegou a casa de madrugada acompanhado da polícia. Vinha todo chamuscado e com umas chaves ( as do carocha) completamente derretidas...Não podia ser verdade! o meu carro novinho em folha acabara de explodir junto às portagens da A5. O carro literalmente explodiu!
Quando passou as portagens, o motor do carro foi abaixo. O meu pai voltou a ligar a ignição e a muito custo o carro voltou a pegar. Andou uns escassos metros e o meu pai logo se apercebeu que o carro já estava em chamas no banco de trás. Resumindo: o meu pai praticamente só teve tempo de sair do carro ( ah ainda se lembrou que tinha 40 contos no porta-luvas e voltou atras para os tirar) e o carro explodiu. Por sorte conseguiu sair a tempo. Julgamos que o que fez com que a explosão não se tivesse dado antes foi o facto do motor ser atras e o depósito à frente. Caso contrário, aí sim, uma verdadeira tragédia. O Capot disparou como um tiro em direcção ao céu! Durante o tempo que o carro esteve a restaurar o mecânico por esquecimento ou lapso não mudou os tubos da gasolina. Com o passar do tempo e o carro parado os mesmos acabaram por romper derramando gasolina para o motor... e pronto... o resto já sabes... E foi assim que o meu primeiro carro e nunca o chegou verdadeiramente a ser... Como calculas a minha visão sobre os restauros não é a melhor... ja a paixão pelos carochas... essa mantém-se, claro!
Beijo Grande
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