Confesso que há episódios em que tenho a certeza que é possível ver passar o espectro de cores do arco-íris na minha cara. Houvesse alguém por perto e não teria dificuldade alguma em perceber a passagem de um estado de acalmia ao estado em que freneticamente procuraria uma quina viva para bater com a cabeça.
Tenho-me como sendo um cidadão zeloso e cumpridor das minhas obrigações. Zelosamente honro as minhas obrigações pagando os impostos que o meu tão querido Governo me cobra, deixando-me a cada mês que passa com menos dinheiro. Entre outras coisas. Ah..contribuo também para o pagamento do vencimento do senhor Silva que já me atendeu alguns telefonemas no número de emergência.
Tenho a certeza absoluta que é sempre o mesmo senhor Silva que me atende as chamadas. Pode parecer coincidência, mas numa moldura temporal de cerca de 4 anos a esta parte, das 5 vezes que liguei para o 112 foi sempre a mesma voz monocórdica que me atendeu. A mesma cadência na voz, o mesmo timbre e o mesmo...sotaque. É aqui que eu o topo e apanho na curva. O sotaque nortenho que não me engana.
Acredito também que sempre que ligo para o 112 o faço directamente para casa dele em Tabuaço. Por coincidência, em 3 das vezes que liguei foram depois do almoço e duas outras vezes tiveram lugar no início da madrugada. Horas de descanso merecido, portanto. Daí a justificação da demora no atender a chamada. Podia estar alguém a ser esfaqueado e a jorrar sangue pela jugular que o se ouviria o seu sotaque e calma habituais a atender mais uma chamada.
Como será lógico depreender, tenho mais que fazer do que perder tempo com chamadas desnecessárias. Se marco o número de emergência por alguma coisa é. Ou porque necessito, ou porque quero chamar a atenção das autoridades competentes para alguma situação. Também sei o modo de funcionamento das chamadas urgentes. Por onde "entram", como são triadas e a informação que desejavelmente o Sr. Silva espera obter. Idealmente, as coisas têm tudo para funcionar bem. Até porque há umas dezenas de anos todos nós ajudámos a comprar umas centrais telefónicas do mais evoluído que há...
Mas nem tudo é simples e linear. O Silva tem o dom de me irritar. Sempre forneci indicações precisas e objectivas. Sumárias. Em tom calmo, sereno e nunca entrando em pânico. Do outro lado espero que alguém entenda e saiba diferenciar cabalmente a diferença entre "Onde", "Como", "O que foi visto / aconteceu" e "O que preciso activar". E claro, só tenho tido azar. Eu e o Sr. Silva não nos damos nada bem. E se começo o telefonema brando, com calma e com imensa paciência e vontade de ajudar...acabo com vontade de ir ao centro de atendimento destas chamadas e ter uma conversa de "pé de orelha" com o Silva. Porque efectivamente, está mal na actividade profissional que desempenha. Devia procurar algo menos stressante e que lhe ocupasse menos da sua parca actividade cerebral. O estudo da reprodução das borboletas autóctones da Somália ou das ursos polares no Alaska..
É importante que este serviço de emergência funcione. Aliás, não basta funcionar. É necessário que funcione bem. De forma expedita e sempre profissional. Por forma a que seja possível prestar socorro. E salvar uma ou mais vidas. Se fôr caso disso.
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