sábado, julho 24, 2010

Les Chefs

Tenho constatado uma proliferação de chefs nos últimos tempos. Congratulo-me por vários destes chefs terem passado de um  profundo e recôndito anonimato para uma projecção expressiva e espacial. Como se não bastasse alguns artigos que reconheço serem importantes em algumas revistas "côr-de-rosa", começam a "ganhar terreno" e a surgir noutro tipo de revistas onde até há uns anos seria impensável.

Que fique claro que não sou contra este tipo de escrita "gastronomicamente orientada". Bem como não sou contra o facto de surgirem novas "esperanças" num mundo em que há umas décadas atrás era dominado pelo Michel da Costa e pela Filipa Vacondeus / Maria de Lurdes Modesto. Sempre foram as referências que tive enquanto pessoas com credibilidade e mérito reconhecidos, que ali na RTP 1 tantos pratos confeccionaram e se me "aguaram" a boca, qual cão de Pavlov...reflexos condicionados, claro.

Importa também falar um pouco sobre o fenómeno Jamie Oliver. Para quem anda afastado da tv, trata-se de um rapazola loiro com cabelo espetado, com um ar de enfant terrible que cozinha com o que lá há ou encontra no "quintal ao lado" da cozinha. Ah..e tem um programa televisivo. A "receita de sucesso" deste programa passa pelo à vontade com que aparentemente se move na cozinha, e do facto de conseguir em sensivelmente 30 minutos de duraºão  confeccionar um prato digno de uma recepção da embaixada da Croácia, com ingredientes apanhados....ali do chão. Chama-se a isto criatividade e capacidade de improviso. Verdade seja dita, o Jamie é pródigo nisso.

Já o protagonismo que lhe é dado....irrita-me um bocado. Que seja bom cozinheiro...ninguém diz o contrário. Que até seja um tipo que se apresenta como "podia-morar-na-casa-ao-lado-da-tua-e-cozinho-coisas-que-tu-também-podes-cozinhar-se-tiveres-um-quintal-comó-meu", ninguém diz o contrário. O que acho ser abusivo é que seja quase que impingido o gostar do Jamie. Há uns 8 anos não o conhecia. Era um ilustre desconhecido que para grupos de amigos fazia uns pratos engraçados. Eu também sei fazer ovos mexidos com salsichas e não é por isso que vou à SIC pedir um programa de televisão. Ou não escrevo um livro sobre a forma de como os meus bifes ficam sempre saborosos...ou como tenho "mão para o sal". Ou ainda de como sei fazer "daqueles" bolos...(não interessa para o caso que sejam daqueles que já vem com a massa pronta, sendo apenas necessário enformar).

Os bons chefs, aqueles das estrelas Michelin não têm tempo para estas coisas de merchandising pessoal ou projecções públicas da imagem. Estão mais preocupados em manter não só a(s) estrela(s) dos restaurantes onde trabalham, bem como as suas estrelas, enquanto chef. O reconhecimento do seu trabalho, empenho e profissionalismo é encontrado por altura da degustação dos pratos nos restaurantes onde trabalham...e onde passam a maior parte do tempo. Ao longo do ano.

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1 comentário:

Cmg disse...

Todos os anos vou a Barcelona, e nas últimas vezes tenho ficado hospedada num hotel em que o cozinheiro tem uma estrela do guia Michelin. Se a comida é boa? Muito boa. Se é cara? Também. Se vejo no prato algo que nunca vi? Não. O que notamos é que é a "novidade" da conjugação dos ingredientes que faz a diferença. Fiquei fã da omolete com espargos :)