sábado, agosto 07, 2010

Violência Doméstica

Tenho a violência doméstica como um tema muito delicado. Por várias razões.  A primeira das razões, prende-se com o facto de 98% dos casos de violência doméstica ser perpetrada ou consumada por homens. Enoja-me este tipo de homem. Cobarde, sem escrúpulos, e que entre quatro paredes sabe que pode dominar e magoar a mulher. Em segundo lugar, a não comunicação destes actos de violência às autoridades competentes...já lá vamos. Em terceiro e último lugar, a forma displicente como a justiça portuguesa (mais uma vez) actua nestes casos.

Quanto ao tipo de homem execrável que pensa, sequer, em infligir a dôr a uma mulher, não me merece qualquer comentário. O egoísmo vai tão longe, que acabam por ser calculistas, e são de tal forma medrosos, que só conseguem fazer mal onde outras pessoas não podem ajudar, ou seja, tipicamente nas suas casas.

Relativamente à não comunicação, confesso que compreendo o lado da mulher. Por vezes, o amor que sente pelo parceiro faz com que releve a importância deste acto medíocre. Por outro lado, quando violentada/agredida, a mulher equaciona no que perderá se apresentar queixa do parceiro às autoridades. Na maioria das vezes trata-se de um pai de família, marido. A partir do momento em que a queixa entra na autoridade, tem início um inquérito. Pode ou não culminar em tribunal. Conheci dois casos, num passado longínquo, em que as mulheres foram retirar a queixa (depois de terem apresentado), porque os marido começaram a coacção psicológica em casa e porque ameaçaram cortar com uma série de facilidades. Não intervi porque qualquer uma das pessoas em causa me pediu encarecidamente para o não fazer. Nos dias que correm, sendo que as coisas não estão fáceis, preferiram continuar a viver o inferno em detrimento de dar continuidade ao processo judicial. Errado. Mas senti-me de mão atadas.

Ouvi há pouco nas notícias que desde o início do ano já 15 mulheres perderam a vida vítimas de violência doméstica. Fez-me pensar que realmente Portugal é óptimo para todo e qualquer animal destes, que consegue este tipo de feito - bater ou violentar uma mulher. Só Deus sabe quanto tempo aguentaram em silêncio as mulheres. Só Deus sabe quantas outras mulheres viverão martírios similares nos seus quotidianos. Não hipotecando o seu papel de mãe, de boa profissional e ainda de mulher. Ainda que para isso seja obrigada a ter um sorriso dosponível todos os dias e tenha de reprimir o choro, a raiva...e acima de tudo, quando há filhos, não se ir abaixo à frente deles.

À semelhança do que acontece em tantas outras matérias, não interessa mais legislação dedicada feita num gabinete com ar condicionado. Interessa dotar os assistentes sociais e as autoridades de ferramentas que possibilitem às vítimas sentir conforto. Não se sentirem angustiadas e desprotegidas se tiverem de relatar uma ocorrência destas. Não interessa continuar de forma leviana a poder proporcionar uma boa estadia na prisão aos homens detidos por violência doméstica. Muitos dirão que estão arrependidos e que não voltam a fazer. Contudo, do outro lado, o mal está feito. Irremediavelmente, em 100% dos casos. Se as mazelas físicas desaparecem com o tempo (a maioria), já as psíquicas não desaparecem. E são na maioria das vezes aquelas que ficam para sempre. Infelizmente.

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2 comentários:

Zé disse...

Sabes João, publicasses tu os meus comentários, e eu poderia relatar na premira pessoa o que é viver anos, e anos, a sofrer maus tratos, físicos e psicológicos, a como se diz "engolir" para dentro a raiva, a dor, a frustração, o ter a certeza de que não poderia fazer nada, para alterar a situação, e ter que mostrar sempre cara alegre, mesmo que o meu corpo e a minha alma estivessem marcadas de nódoas negras, vestir mangas compridas em pleno pico de verão, ir ao hospital envolta em sangue, e dizer que foi um acidente.... e pior ainda bem pior, ser agredida fisicamente, (já que o verbalmente eu já nem ligava) em locais públicos, tipo casamentos etc etc, e ninguém fazer nada, ou dizer nada.....e depois ainda pior em que me sentia a mais miserável das mulheres, era ter que dormir com a pessoa em questão, porque foi com ele que casei, e tinha que aguentar a minha cruz, era chorar de dor e raiva cada vez que tinha que lhe a fazer as vontades, mesmo depois de ele me ter agredido e insultado..... Quisesses tu saber na primeira pessoa o que são os horrores da violência doméstica, e o aguentar em silêncio, o desejar morrer, ou que a outra pessoa morresse para o inferno acabar, e eu escreveria de forma nua e crua o que isso é, e talvez nem tu, nem as outras pessoas que seguem o teu blogue acreditariam que no nosso mundo ,houvessem monstros assim..... só de te escrever isto, as lágrimas mesmo que eu as reprima, não se seguram dentro dos olhos....... razão pelo que eu prefiro guardar estas recordações no mais fundo de mim.....nada nem ninguém tirará de dentro de mim este pesadelo, mas pelo menos ainda me conservo viva, o que não acontece a muitas mulheres, por quem eu choro sempre que leio uma noticia destas no jornal......

Cmg disse...

A ave rara que um dia teve a brilhante ideia de me "agredir", levou na mesma proporção. Teria sido ainda mais bonito se tivesse repetido, mas não o fez. Não me orgulho nada de lhe ter dado por igual, mas não tenho sangue de barata e não sou de me ficar.
Cmg