Acredito que em breve estaremos perante um País desgovernado. Já terá faltado mais. Um País desgovernado sugere-me uma ainda mais e acentuada desigualdade social. Mais para quem já tem muito e pouco (ou nada) para quem não tem nada. Torna-se claro que medidas como o célebre pacote das "Medidas de Austeridade" virão agudizar uma situação já de si tensa.
O FMI (Fundo Monetário Internacional) adianta que a economia portuguesa não vai estagnar (como tinha sido anteriormente referido), mas vai entrar em recessão. O que não são boas notícias, como se percebe. Também é líquido que o português da classe média já não tem "furos no cinto" para apertar. Aliás, já nem tem o cinto. Resumidamente, e de há uns valentes anos para cá que é esta classe social que tem pago a factura: os ricos pagam a quem os ajude a fugir dos impostos e da tributação cada vez maior nos ganhos. Colocam dinheiro fora do País, nos tão em voga off shore. Os pobres não têm dinheiro para pagar impostos, e claro, não pagam. Sendo que alguns não serão tão pobres quanto isso..porque já ouvi falar de casos em que passam do desemprego para uma ocupação profissional e continuam a receber o subsídio de desemprego. Infelizmente é uma prática corrente. E como seria de esperar, o sistema peca porque falha e porque não há forma de fiscalizar estas irregularidades.
Tudo isto tem como consequência o aumento da crispação das classes sociais mais sacrificadas. É injusto que sejam sempre os mesmos a pagar, aqueles a quem são pedidos sacrifícíos e os aqueles que até lêem nas capas dos jornais que há empresas estatais que querem renovar frotas de 400 automóveis. Ainda que desmentido no dia a seguir..não vai deixar de ser feita a tal renovação da frota. Mas isso já caiu no esquecimento e não será notícia...
O meu ponto é simples. Quando começar a faltar a comida na mesa para algumas famílias, começam os problemas. Nenhum dos membros do actual Executivo passou por privações. Aposto o que for preciso como nunca sentiu fome. Ou como nunca deixou de ter dinheiro para comprar comida para os filhos. É uma estirpe nova de políticos que ganhou projecção no pós-25 de Abril, e em consequência de uma actividade política intensa. E insolente. Nas décadas anteriores à revolução dos cravos fumava ganzas, lia Proust e ouvia Zeca Afonso. Pertencia na altura à classe média/alta e como tal tiveram acesso a meios priveligiados, onde ser rebelde e irreverente era moda. Resultado: São os políticos que nos governam.
Imagine-se a realidade da família Silva. Os Silva moram em Alfama. O Sr. Luís, soldador de 1ª, todos os dias, utiliza os transportes públicos para os estaleiros navais da LISNAVE, em Almada (como dizia o outro, "no deserto"). Trabalha há mais de 30 anos nesta empresa, desde que veio com a sua mulher Fernanda, lá da terra, em Viseu. A mulher trabalha como cozinheira num restaurante em Setúbal. Ambos têm de sair de casa pelas 0530H e regressam por volta das 1900H. Em tempo de chuva as coisas agravam-se e a hora de chegada "derrapa" cerca de hora e meia. Com 2 filhos menores, custos de educação, alimentação, roupa, as contas complicam-se severamente. O vencimento de ambos não chega a 1000 euros.
Os Silva ouviram na televisão que o iva vai aumentar para 23% e percebem que com isso....tudo vai aumentar. A Fernanda começa a chorar e o Luís Silva, sabendo que em breve não terá forma de garantir o pão na mesa...começa a pensar em formas de conseguir garantir os meios de subsistência primários. Afinal é o homem da casa, e é a ele a quem compete a arranjar uma solução....A história continuava...E chegaríamos ao serviço de "correio" de droga, assaltos, etc. Garantidamente, esta é uma história igual a tantas outras e que sustenta os sucessivos incrementos que taxa da criminalidade vai sofrendo ..
Este é o início de revoltas sociais. Não há pior sensação que a dos pais não terem como garantir a sobrevivência dos filhos. Quem me lê, certamente que não consegue imaginar uma situação extrema destas. Eu dificilmente consigo. Mas há famílias que conhecem de perto esta realidade. Com o aumento e diminuição da taxa do iva conseguem de forma mais (ou menos) confortável chegar ao final do mês com algum. E quem sabe poupar.
Tenho pena que estas "medidas da austeridade" que visam em última análise a diminuição da inflacção não tenham sido pensadas mais cedo. Mais uma vez, o exemplo não foi dado "de cima" e constata-se uma acção "reactiva" quando deveria ter sido "preventiva". Uma gestão consciente, regrada, uma conversa franca, honesta e objectiva com os portugueses teria calhado bem. Um preâmbulo para os tempos difíceis que se avizinham. E que poucos conseguirão aguentar.
A única alternativa que me parece acertada é agora, e mais que nunca, dar um sinal de esperança ao tecido empresarial e aos agentes investidores (quer nacionais, quer estrangeiros). E desde há uns 5/6 anos para cá tal não tem acontecido. O investimento estagnou, a criação de postos de emprego não teve lugar e consequentemente, com o aumento dos impostos das empresas...algumas tiveram de fechar as portas, aumento consequentemente a taxa de desemprego.
Parecem-me estar reunidas as condições para convulsões sociais...Espero estar enganado.
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