Há uns anos atrás, quando terminei e licenciatura, fiquei uns tempos (cerca de 2 meses) sem encontrar emprego. Talvez tenha sido menos tempo. O que interessa é que voluntariamente me fui inscrever na delegação do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP) da minha área de residência.
É claro que, à boa maneira tuga, a descoberta da tal delegação não foi imediata. Poderia ter sido, mas não seria a mesma coisa. Os portugueses gostam de complicar, e claro que tive de perder tempo a procurar a famosíssima delegação, quando, na minha leitura, as coisas podiam ser resolvidas na internet (para quem tem e usa). Mas não. Valeu o facto de nesse tempo não ter compromissos profissionais e ter podido pular de delegação em delegação (regra geral o site do IEFP não está actualizado).
Adiante. Lá descobri qual era a delegação e inscrevi-me. A partir desse preciso momento, passei a constar das estatísticas do INE (Instituto Nacional de Estatística) como sendo licenciado e estando sem emprego. Desde já refiro o facto de não concordar com este indicador. Passadas duas semanas surgiu uma oportunidade de emprego, que me agradou, e aceitei-a. Zeloso das minhas responsabilidades cívicas, fui à tal delegação do IEFP e informei do sucedido. Devo ser a única pessoa da história de Portugal que o fez até hoje. A mulher ficou a olhar para mim como se lhe tivesse pedido um rim. Mas enfim. Onde quero chegar é que o tal indicador de "licenciado-desempregado" não deve ser dos mais actualizados, o que me sugere números virtuais e passíveis de não corresponder à realidade. Aposto o que quiserem.
Durante estas duas semanas de interregno, fui convidado a participar em algumas sessões em grupo com uma socióloga (ou psicóloga). Não me recordo em concreto, e desde já peço desculpa aos profissionais de ambas as áreas que me lêem. Sei serem áreas distintas, mas confesso que a minha memória já não é o que foi. A conversa que houve entre esta profissional e os desempregados (nos quais se incluía o vosso escriba) em sala assumiu contornos daquilo a que chamo "intelectualmente ofensivo". Tenho a certeza absoluta que por altura da minha passagem pela pré-primária, tive conversas mais construtivas e interessantes com a minha educadora. E sinceramente, se aquelas duas sessões em que estive presente são uma amostra do que acontece no restante País, meus amigos e amigas...tenho a dizer que compreendo o porquê de Portugal ser comummente considerado como um "País em vias de desenvolvimento".
Não está em causa ser engenheiro ou não. Está em causa a adequação do discurso às pessoas que se encontram naquela sala de aula. Se há engenheiros, psicólogos, advogados, cozinheiros e motoristas de camiões TIR, o discurso não tem de ser nivelado por baixo. Nem por cima. Há formas de se conseguir fazer passar a mensagem sem que o mais culto em sala se sinta medíocre, ou o menos culto não apanhe nada do que é dito. Chama-se a isso o meio termo, e é algo que se aprende de imediato nos cursos de formação - adequar o discurso ao público em sala. Quem não o sabe fazer...não devia orientar ou conduzir sessões de grupo para desempregados. Arrisca-se a levar com um sapato na cabeça, por parte de alguém que se sentiu ofendido.
A razão de ser destas sessões é perceber qual o perfil de entrada dos desempregados de Portugal. Subsequentemente, e após análise (quero eu acreditar) é dada entrada destas pessoas numa base de dados e, assim que apareçam oportunidades de emprego que o IEFP entenda que são adequadas à pessoa em causa, é a mesma contactada no sentido de perceber se há interesse ou não em aceitar as mesmas. Nessa altura, só se podiam recusar duas oportunidades de emprego.
No meu caso, e no espaço de duas semanas, surgiram duas oportunidades de emprego. A primeira, lamentavelmente tive de declinar. Não porque me desagradasse a mesma, mas porque era pedida alguma experiência profissional - A aliciante actividade de cozinheiro para um hotel ali na baixa pombalina. Tendo dito à menina do IEFP que era engenheiro e que gostava de trabalhar na área, só posso acreditar que a mesma entendeu que o meu futuro passava pelos tachos. Vai daí, colocou à minha frente a oportunidade única de singrar na vida como "Chef" num hotel da baixa. Declinei pela falta de experiência profissional. E ficou-me a restar uma recusa.
Quase a terminar as tais duas semanas em que não encontrei nada, o IEFP voltou a contactar-me para lá me dirigir. Desta vez com uma proposta irrecusável e que teria mais a ver comigo - Electricista Auto. Eu, que tenho alguma dificuldade em entender numa tomada eléctrica qual o positivo e o negativo, que apenas e só sei que nos carros a energia eléctrica é dada pela bateria...estava a ser confrontado com a oportunidade única de ingressar neste mundo maravilhoso dos automóveis. Fiquei de pensar no final de semana e foi quando surgiu a oportunidade de ir para a consultoria em engenharia.
Na Segunda-Feira seguinte fui o primeiro Cliente da delegação e dei baixa da minha necessidade de emprego. O que acontece, na maioria das vezes, é que as pessoas são confrontadas com oportunidades de emprego que nada têm que ver com a sua formação profissional. Confirma-se esta realidade o que acabo de referir. E, creio ser errado alguém ser penalizado pelo facto de não ter aceite duas vezes algo em que não iria poder dar o seu melhor. E para o qual não tem qualquer vocação ou habilidade.
A situação requer outra análise quando há vontade em perpetuar a "mama" do subsídio de desemprego e passar os dias inteiros a não fazer puto. Aí sim, reconheço a legitimidade da penalização. E quanto mais severa melhor.
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