Este será um dos textos mais conhecidos do famoso filósofo Platão. E não é que é muitíssimo actual? Recomendo que quem ainda não teve oportunidade de ler este texo, o faça. Rapidamente. Num qualquer debate político televisivo que se aproxima. Muito mais interessante, actual e verdadeiro.
Platão assume a tese da existência de dois mundos distintos: a) Mundo Sensível, que não é mais do que o conhecimento da aparência e b) Mundo Inteligível, que é o conhecimento da realidade.
Muito resumidamente, esta alegoria estabelece uma comparação entre o mundo sensível e a realidade, a escuridão, e por outro lado alude à luminosidade e o mundo inteligível, ao mundo fora, "além gruta", em que se tenta evidenciar as reacções da Humanidade aquando do verdadeiro conhecimento. Também é claro que, e contrariamente ao expectável, o Homem não se deslumbra com a sabedoria ou quem, de forma gratuita o ajuda a clarificar a mente. Muito pelo contrário. Reage negativamente, numa primeira análise, e só depois, cabalmente clarificado quanto à verdade é que o esforço penoso da adaptação à realidade é por si recompensado.
Escolhi este tema para corroborar a minha crença de que é mais fácil seguir um modelo já experimentado, com provas dadas de segurança, estabilidade e conforto, do que enveredar pelo caminho da descoberta, experimentação de novas possibilidades e procura de alternativas credíveis e válidas. A Humanidade, tipicamente adopta e segue modelos confortáveis. Acomoda-se. Vive uma realidade tranquila e pacífica, na medida em que não há ameaças, não há pontos de discórdia e tampouco tem lugar o desconforto que uma solução não validada / experimentada anteriormente pode reflectir.
Infelizmente, e lamento informar, não é este o caminho. A História mostra que foram as "pedradas no charco" que fizeram com que acontecesse uma sequência de feitos e factos cronologicamente encadeados, e que certamente não teriam lugar se se tivesse mantido e preferido o conforto da caverna. Porventura o nosso Vasco da Gama não teria descoberto o caminho marítimo para a Índia. Ou o também nosso Cristovão Colombo não teria descoberto o "país irmão"...Eventualmente teriam sido muito mais confortável ter ficado ali em Belém a "jogar-ao-guelas". E a empanturrar-se com os pastéis de Belém. Com os velhos do Restelo.
É um pouco isto que neste momento acontece em Portugal. Não há quem tenha a coragem de "atirar a pedra ao charco". Contrariamente ao que os media avançam, discordo que exista uma crise política. É um argumento fantasioso, criativo e que me diverte, pelo facto de ser facilmente desmontável. A leitura deste presente momento deve ser outra. Antípoda. Sabe-se que nos "bastidores" há / tiveram lugar reuniões "secretas" entre o maior partido da Oposição e o Governo demissionário. Há / houve acordos. E acredito com cada vez mais convicção que haverá uma recondução do ex-Primeiro Ministro no próximo dia 05 de Junho de 2011. Sustentado no facto de acreditar que a queda do Governo foi estratégica e cirurgicamente planeada. Não ao nível do Governo. Mas sim ao nível da concertação de dois partidos. Sendo um deles, e curiosamente, o maior partido da Oposição.
Tenho a perfeita noção de que seria muito complicado à Oposição conseguir "dar conta" do pesado e volumoso fardo que é a situação em que Portugal se encontra neste momento. O legado. Porquê? Porque o Presidente do maior partido da Oposição é um idealista. Um poeta. Advoga princípios e defende a intervenção / solução para o País baseado em cânones desadequados e nada realistas. Convida personalidades para integrar a sua lista eleitoral que pecam pela não coerência entre as afirmações de um passado recente e o presente momento. E por último, não tem o apoio dos "pêsos pesados" do partido. O que per se dita a "morte na praia". Sozinho.
Do acima, decorre um resultado perfeitamente lógico e imediato. Há desde logo dois partidos a "facturar". Por um lado, aquele que encenou a sua saída. Falo do Governo demissionário, que vendeu a imagem de que não tinha condições para governar. Comprou quem quis. Eu não quis comprar. Afinal tinha razão para não querer. Percebe-se agora que as coisas não terão sido bem como foram vendidas. A minha leitura e crença, é que o ex-Governo tardiamente percebeu que tinha feito asneira, e não tendo possível corrigir, aproveitou-se do facto de ter um Presidente da Oposição acabado de sair das fileiras da "Jota". O que só por si sugere pouco à vontade no combate político, desconhecimento das principais pastas "quentes" e claro, sem a retórica e capacidade argumentativa que é necessário reconhecer no ex-Primeiro Ministro. E claro, com um enorme pressão por parte da Comunidade Europeia, foi preferível fazer a encenação toda. Talvez tenha iludido os mais incautos. E talvez tenha vendido bem uma balela para o exterior. Para mim não.
Por outro lado, ganha a extrema direita. Ou o partido mais à direita, se preferirem o florear o nome das coisas. Porquê? Porque mais uma vez, e como referi no início deste texto, as pessoas preferem viver numa área de conforto. Sem grandes complicações. Sem convulsões políticas. Sem terem de sair de casa e ir apanhar chuva para lutar pelos direitos adquiridos, ou manifestar-se contra a abolição do 13º mês ou do subsídio de férias. Inconscientemente dão consigo mesmas a recuar no tempo e a querer reviver aquilo que perderam há 37 anos. Porquê? Porque nessa altura, embora existisse muita coisa má (inegavelmente), havia uma área de conforto maior. Havia segurança, havia estabilidade. Havia proteccionismo (exagerado). É certo que a realidade que chegava aos portugueses já tinha sido muito filtrada. Mas também é certo que quando tudo começou, a situação do País era análoga à que se vive neste momento. E foi com muita persistência, empenho e determinação que se "levou o País a bom porto". O que neste momento não acontece. Portugal está à deriva. Dentro da caverna.
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