sábado, junho 04, 2011

Aguardente de Medronho

Tendo família no Algarve, é normal que tenha um conhecimento relativamente bom acerca da gastronomia desta zona do País. Falo é claro dos "comes", "bebes", doçaria e logicamente das bebidas espirituosas.

O Sr. Coelho, sogro de um dos meus primos é agricultor. Daqueles bem sucedidos. Tenho-o em grande estima e é uma das pessoas mais genuínas que conheço. Prezo muito isso. É detentor de uma sabedoria popular enorme e uma capacidade de organização que faz com que eu seja desorganizado. E trata-se de uma pessoa que poucos ou nenhuns estudos tem. Subiu a pulso, fez vida, teve filhos, criou-os e hoje em dia usufrui do que conseguiu conquistar ao longo dos vários anos.

Uma das suas culturas é, como não podia deixar de ser, o medronho. Para quem não sabe ou conhece, o medronho está para o Algarve como as imagens da Torre Eiffel está para Paris. Em todo o lado se fala do medronho. Ao virar de cada esquina.Há 45 sobremesas que se podem fazer com este fruto. Gastronomia típica, pois claro. E ainda a questão da aguardente.

A história da aguardente de medronho conta-se facilmente. Trata-se de uma aguardente preparada a partir de um fruto (medronho), que tipicamente surge nas serras algarvias. A fruta é posteriormente fermentada em tanques de madeira ou barro. 

Actualmente a fermentação também se faz em depósitos de cimento, mas só em destilarias de significativa dimensão. A fermentação é natural e pode durar entre trinta a sessenta dias. Os tanques devem ser cobertos com frutos esmagados para evitar o contacto com o ar. É necessário adicionar uma parte de água para cinco partes de fruta. Depois de fermentado o produto deve ser guardado durante sessenta dias e bem protegido do ar. Hoje em dia existem destilarias semi-industriais. No entanto, a melhor aguardente é aquela que é produzida por destilação descontínua (fogo directo), ou seja, à moda antiga, e por forma a encorpar mais a bebida (leia-se aumentar o teor alcoólico). Uma boa aguardente de medronho é transparente, com o cheiro e o gosto da fruta. Nas montanhas, uma boa aguardente deve ter 50º. E é precisamente aqui que quero chegar.

Numa das minhas idas ao Algarve, a casa do Sr. Coelho, fui brindado com um copo de aguardente de medronho. O aroma frutado enganou-me. A tonalidade transparente do conteúdo do cálice deveria ter soado em mim os alarmes de quem vive em Lisboa durante 300 e tal dias do ano e não está habituado a beber este tipo de bebida demoníaca. E assim foi, num grupo de uns 10 homens, reunidos em círculo e com os cálices a transbordar desta aguardente, seria mau não beber tudo de um trago só. Aliás, como todos fizeram. Eu também, é claro.

A sensação inicial foi boa. Aquela aguardente de medronho estava bem gelada. Parecia um qualquer licor inofensivo. Mas devia ter percebido que nem tudo o que parece é. E rapidamente cheguei a essa conclusão..Da pior forma. A sensação que veio a seguir será próxima do ter sorvido 3 copos de gasolina. E de ter de seguida ateado fogo. Incendiei por dentro. Tentei esboçar um sorriso, com as lágrimas a correrem pela face, e a tentar manter a compostura. Lá veio outra vez a treta do "velho" cisco que entrou para o olho. No caso para ambos os olhos. Foi complicado, mas aguentei estoicamente sem cair para o lado. Só passados 5 minutos consegui verbalizar que afinal era uma "boa pomada". Não consegui dizer mais nada o resto da tarde. Serviu-me de emenda.

Próximo Tema: Derrotas Eleitorais

Sem comentários: