sexta-feira, julho 22, 2011

Cortar no Supérfluo

Dizer à maioria das pessoas para que cortem no supérfluo é o mesmo que dizer se lhes está a apetecer passar com força os nós dos dedos no ralador da cenoura e depois mergulhar a mão num alguidar com álcool. Ninguém quer cortar no supérfluo. Porquê? Porque não há supérfluo. É uma fantasia da troika. Porque esse tipo de raciocínio não é possível ser tido nos dias que correm e em tão evidente clima de prosperidade e crescimento económico de Portugal.

Sempre me assumi como comodista. Amo conduzir e como tal, as raríssimas situações em que não conduzo estão perfeitamente tipificadas e em número de "meia mão". Eventos singulares em que saio à noite e antevejo que que vou beber uns copos a mais. Quando vou para um sítio qualquer onde me arrependo de ter vendido há tempos o Smart. Quando alguém me vai buscar a algum lado. De resto, poucas serão as vezes em que não ando de carro.

Há dias falava com dois amigos sobre a forma como cada um diariamente se desloca para o trabalho. Estamos a falar de pessoas que têm carros do segmento médio-alto, familiares e que naturalmente sei bem o tipo de "mordomia" a que estão habituados. Entrar no carrito, ligar o motor, climatizar o carro a 20ºC, e com serenidade rumar ao escritório. Percebi aquiescendo com a cabeça e fingindo mostrar-me muito impressionado, que ambos, com transportes públicos à porta de casa, juram que a rede de transportes é má e sofrível. Lamentei naquele momento saber onde mora cada um deles. E ainda consegui arregalar mais os olhos, fingindo-me chocado e quase solidário com tamanha injustiça. Em aditamento, posso avançar que num dos casos, mais à porta (ou perto) só se o Metropolitano de Lisboa optasse por colocar das paragens da linha amarela na sua casa de jantar. No outro caso, tenho a certeza absoluta que consigo demorar mais tempo a lavar os dentes depois do jantar que ele a chegar à estação do comboio, estacionar o carro e meter-se no comboio para vir para Lisboa. 

Não vou entrar em grande detalhe do número de transportes que cada um teria de ponderar apanhar para chegar a horas. Mas ronda as 2 vezes num dos casos e as 3 vezes no outro. Se é uma série de trocas que têm de ser ponderadas e equacionadas? É. Mas não vejo outra forma de se poupar. Se há sempre o risco real dos atrasos? Há. Mas mal seria das pessoas se todos os dias acontecessem atrasos nos transportes públicos. Por vezes é importante avaliar as coisas numa perspectiva pragmática. Andei décadas de transportes públicos. Quando necessitava de chegar a algum lado a horas, tinha um bom remédio. Ponderar o imponderável. E ter em linha de conta, no meu horário mentalmente definido, que podia acontecer algum imprevisto. Jogar com a antecedência. E sempre resultou. E não, nunca foi necessário sair com 2 horas de antecedência. Bastava ser sensato e programar tudo de forma eficaz e séria. Quando por outro lado se confia no acaso, às vezes dá asneira.

Tenho recusado vários jantares fora. Por duas razões. Em primeiro lugar, porque cada vez é menor a paciência que tenho para ficar a falar até às 0400H da matina sobre os problemas dos outros e do mundo. Contudo, importa referir que aguardo ansiosamente que alguém me convide para esta conversa às ....0800H. Em segundo lugar, porque estou em contenção. Defini um objectivo monetário a 3/4 anos e estou a trabalhar afincadamente para o atingir. Só me será possível atingir o mesmo recorrendo a uma grande auto-disciplina, que passa por separar mensalmente um "quinhão". Do outro lado, passa a haver um maior controlo nas despesas supérfluas, e nas quais, entre outras, caem os jantares fora ao final de semana. Não digo que não os tenha. Digo que os aceito, mas com mais sensatez e ponderação. Duas palavras que importa reter e interiorizar.

Há milhões de exemplos que podem ser aqui dados e desenvolvidos. Todos saberemos de vários. Pôr em prática, por vezes, sugere uma modificação nos hábitos de vida das pessoas e/ou alteração de rotinas de décadas. E claro, é sabido que o Homem é um animal de rotinas. É avesso à mudança. Sempre foi e continuará a ser. Por essa razão, e para aquelas famílias em que há um maior "desafogo" (tipicamente classe média), cortar no supérfluo é uma realidade distante e que só "afecta os outros". Para já..é manter o mesmo nível de vida. Sem grande mudança.

Próximo Tema: Atentados Bombistas

Sem comentários: