quarta-feira, setembro 28, 2011

Ou vai ou racha...

Uma tirada comum do nosso povo. Por outras palavras, ou vai a bem, ou vai a mal! Mas vai!!

Sou o exemplo vivo da pessoa a quem já aconteceu tudo. Tudo é tudo..donde, é normal que com algum esforço consiga encontrar exemplos que reflictam tiradas populares como a de hoje. E consigo fazer isto com uma facilidade assustadora, o que per se evidencia quão rica é a minha experiência de vida.

Julgo já aqui ter referido que comecei a minha vida profissional como mecânico de aviões. Já lá vão quase 20 anos. No início dessa promissora e bem paga carreira de mecânico de aeronaves (que entretanto optei por interromper para tirar uma licenciatura em engenharia - com profissionais tipicamente mal pagos), era usual trabalhar-se com um elemento da equipa com mais experiência. Assim, a experiência de um poderia ser apreendida pelo outro. E assim foi durante uns largos meses. Pontualmente, havia também trabalho oficinal no qual podia haver necessidade de serem manufacturadas peças ou executados pequenos trabalhos / reparações, mas sempre supervisionados por colegas mais antigos / chefe de equipa.

Lembro-me como se tivesse acontecido ontem de uma reparação específica. Estava com um colega mais velho (por sinal com quem tinha muitas conversas sobre legislação laboral, patronato, sindicatos, etc.) e foi-nos atribuída uma reparação na soleira da porta de uma aeronave. Quem conhece pessoas ligadas à aviação (ou trabalha neste meio) sabe que o tempo é um factor essencial para que haja facturação de uma empresa. Os vôos são vendidos pelos Departamentos Comerciais à velocidade com que são conhecidos os buracos financeiros cá em Portugal, e como tal, é importante que não ocorram atrasos. Ou seja, há uma grande pressão depositada em quem trabalha no avião para que os trabalhos não atrasem e os aviões possam sair à tabela. Avião que sai à tabela é sinónimo de Cliente satisfeito. Cliente satisfeito volta no futuro.

Em paralelo, também é fácil de imaginar que há muitas mais pessoas a trabalhar num avião. É normal. Era bom ter-se o avião sem mais ninguém, mas a probabilidade de isso acontecer é a mesma da Grécia não ser "convidada a sair" da Comunidade Europeia pelo incumprimento continuado das medidas preconizadas nos sucessivos planos de austeridade. Donde, é necessária uma enorme coordenação de trabalhos e tentar ao máximo não interferir com a realização das tarefas de outras pessoas.

A questão logística é outro aspecto importante. O trabalho em hangar (a "garagem" dos aviões) é tipicamente movimentado. Chegam a estar 3 e 4 grandes aviões no mesmo espaço físico e, por vezes não há escadas (para permitir o acesso a partir do solo ao interior do avião) suficientes para colocação em cada uma das portas do avião. Recordo-me bem de ter sido este o caso. Naquele dia da reparação, não havia escadas suficientes. Era um dia agitado, com uma grande azáfama e "casa cheia". Tudo isto para dizer que só havia uma escada, e toda a gente que estava a trabalhar naquele avião tinha de passar precisamente pela tal soleira da porta que tinha de ser reparada por mim e pelo meu colega.

Simplificando a situação, o trabalho consistia em "descravar" a soleira, reparar a zona em causa, e aplicar uma soleira nova. E aqui começa verdadeiramente a minha história.

Praticamente 90% da estrutura do avião é rebitada. Rebite, por definição, é um elemento de ligação que une duas superfícies. Na aviação, aquela parte exterior da aeronave que se vê, o "charuto", é toda rebitada. Tipicamente, os rebites são cravados com recurso a um homem da parte de fora do avião com um martelo pneumático e que crava o rebite em determinada zona, outro homem da parte de dentro do avião com um "ferro", que não é mais que um objecto pesado de ferro, para permitir o esmagamento do rebite e consequente união das duas superfícies. Há vários tipos de rebites. Para se ter uma ideia, há alguns que têm de ser conservados no congelador pelo facto de serem pouco dúcteis e sendo que a única forma de os cravar é precisamente essa, recorrendo ao frio. Outros há que pela sua especificidade de aplicação assumem formas diferentes, têm um "colar" que é partido após estarem cravados.

No caso da tal reparação da soleira, a fixação era conseguida através deste último tipo de rebite. Dos que têm "colares". A reparação correu toda na perfeição. Importa dizer que houve vários momentos em que não me contive e tive de parar de trabalhar desatando a rir à gargalhada, porque tinha tirado à sorte com o meu colega e o mesmo ficou com a parte do trabalho mais ingrata - enfiar a mão na parte interior da estrutura, para amparar os rebites a serem cravados. Calhou bem porque o meu colega tinha a mão mais pequena foi mais fácil. 

É claro que para ter acesso à tal zona interior da soleira da porta o meu colega tinha de estar deitado na plataforma da escada de acesso. E é claro que para o ajudar eu próprio tinha de estar deitado. Mas em cima dele - daí as minhas gargalhadas, e também porque o ouvi falar de toda a família do chefe de equipa. Desde a avó do mesmo até à...da prima. Acredito que tenha ganho algum vocabulário novo em termos de vernáculo. Num meio frequentado maioritariamente por homens, imagina-se facilmente o tipo de comentários que eram ouvidos por aqueles que por nós tinham de passar para ir trabalhar para dentro do avião.

Já quase finalizado o trabalho, faltava partir o "colar" de dois rebites. Naquele momento não tinha a minha caixa de ferramenta por perto e pedi ao meu colega que me emprestasse a sua ferramenta (entenda-se o alicate que tinha desde a sua entrada para a empresa - havia uns 25 anos) para "partir os colares" dos rebites. Tirou o mesmo da sua caixa de ferramentas, deitou-se de novo na plataforma e enfiou a mão no interior do avião. Já eu, depois de me parar de rir à gargalhada (aí pela 349ª vez), deitei-me em cima do meu colega e com o alicate dele não sem antes ouvir uns assobios da rapaziada que estava por perto.

Bem sei que o material tem sempre razão. Mas houve um colar que me deu mais luta. E terei porventura feito mais força. Consegui portanto partir o colar...e o alicate do meu colega. Não estava a ir...acabou por ir e...não por rachar, mas sim partido. É claro que me desatei a rir. Entreguei-lhe os dois pedaços que restavam do alicate de estimação perante o olhar incrédulo dele. Claro que percebeu que não tinha feito aquilo de propósito, mas desde esse momento, sempre que me apertava a mão referia essa história. Talvez com medo que lhe partisse os dedos!!

Próximo Tema: Fazer as Malas

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