quarta-feira, setembro 07, 2011

Salários em Atraso

O tema de hoje é um daqueles temas especiais. Apenas me é dada a possibilidade de efectuar um exercício de mera e pura imaginação, fantasiando como será experimentar a privação do meu tão querido e esperado vencimento mensal.

Já lá vão alguns anos que integro essa massa de trabalhadores que árdua e zelosamente contribuem para o enriquecimento dos cofres de Estado. Aliás, é preocupante assistir-se à tendencial e preocupante escalada da taxa contributiva em alguns escalões do IRS. Como já aqui referi noutra reflexão, defendo que deveria haver uma taxação das grandes riquezas (proporcionalmente) e em tudo semelhante à que já é praticada na sacrificada classe média.

Com a expectativa de um último (ou nem por isso) "fôlego" ou de um "balão de oxigénio", são cada vez mais as empresas que têm vindo a declarar a tão em voga "insolvência". Alegam que não têm dinheiro para pagar aos Fornecedores, que há várias contas por pagar e claro, ameaçam com o não pagamento dos salários dos trabalhadores. Desconfio que quando algum desses empresários vai ao seu banco pedir mais um empréstimo, não espera outra coisa que não seja, mais uma vez,  que o mesmo lhe seja emprestado, qual "paizinho". É um dos grandes erros que existe em Portugal. Durante décadas existiram linhas de créditos específicas, com taxas de juro aliciantes e continuamente viabilizadas pela banca. Criou-se o péssimo hábito de sempre que necessário recorrer-se à banca. E os empréstimos mais recentes financiavam / pagavam os empréstimos mais antigos. Nos dias que correm, tal deixou de ser possível. Ou por outra, continua a ser possível, mas com taxas de juro obscenas.

A questão que se coloca, na minha humilde opinião, passa por não ter dúvida alguma hoje em dia é fácil a um empresário ir ao seu banco pedir mais um empréstimo. Ou melhor...é um pouco mais complicado, porque o "custo do dinheiro" é mais alto, mas ninguém no seu juízo perfeito vai negar a emprestar dinheiro, ou seja, conceder um empréstimo. A questão é que hoje em dia já vai havendo alguma consciência e não se vai ao banco pedir dinheiro "para aquelas obras que se pensaram há 7 anos e que agora são possíveis" quando afinal se gasta o mesmo na compra de uma carrinha do modelo mais recente de qualquer marca bávara de automóveis....

No meio destas "andanças" todas, há alguém que precisa de "pôr o pão na mesa". Aquelas pessoas que têm de pagar a escola dos filhos (ou os 900 livros escolares que os miúdos necessitam todos os anos) e por aí adiante. E começa a falta de respeito. O egoísmo. A mentalidade provinciana e ultrapassada de alguns empresários desde País. Por culpa da ingerência das empresas, o dinheiro acaba por "ser curto" para "comprar-as-carrinhas-do-último-modelo-daquela-marca-alemã-espectacular-para-todos-os-sócios-ou-Administradores" e claro...para os vencimentos que têm de fazer autênticas "obras de engenharia financeira" para que o "dinheiro estique" no final do mês. São muitos, cada vez mais, mas também são o "elo mais fraco". E que rapidamente ficam sem nada se reivindicarem muito.

Já aqui tinha aflorado esta questão. É habitual dar comigo a pensar que futuro podem augurar estas pessoas com 50 anos de idade e alguns casos quase 40 anos de trabalho na mesma empresa. Uma vida de trabalho. E de um momento para outro, se as condições de vida já eram deficitárias...mais complicadas ficam quando o dia do pagamento do vencimento "começa a derrapar". Depois a falhar pontualmente. Até que os intervalos de pagamento tornam-se mais longos....até que deixa de haver dinheiro para pagar vencimentos. Daqui às greves e à crispação dos trabalhadores...é um pequeno passo. Muito pequeno.

Infelizmente acredito que a realidade que vivemos actualmente vá piorar substancialmente. E dentro de muito pouco tempo. Com a cada vez maior pressão dos países mais ricos (que que têm peso na decisão da atribuição de fundos aos países mais necessitados), estes últimos terão de mostrar trabalho e a adopção das medidas que da austeridade acordadas no "tal" memorando... A produtividade tem de aumentar. Um dos indicadores mais importantes relativo à saúde financeira de um País (o PIB) têm de sair do "lodo" em que se encontra. Ganhar novo fulgor. À custa de um aumento forte da receita e da diminuição drástica (ou corte) da despesa. 

O problema é que esta equação simples reveste-se de uma complexa aplicabilidade. Como tal, o resultado da mesma não poderá ser bom. E quem acaba por se dar mal são sempre os mesmos. Os que mais necessitam.

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1 comentário:

Anónimo disse...

Apreciei... a objectividade, o fio condutor e, finalmente mas, acima de tudo, a empatia que o autor parece conseguir sentir pelos que se encontram em tal situação. E mais serão...cada vez mais, por suposto. Todos os alertas, todas as chamadas de atenção, e parece que já mesmo alguns "gritos" de desespero, que ainda vão conseguindo direito de antena em pleno horário nobre, já pouco ou nada comovem....já pouco ou nada movem...Porque simplesmente neste neo-liberalismo vigente, o homem existe simplesmente para servir as Economias. E não! Não me enganei no h minúsculo do homem e no E maísculo de Economia porque, todo o sistema económico e ideologia subjacente, está subvertido e tornou-se perigosamente perverso.E por esta ordem!