domingo, setembro 16, 2012

Escrevo estas linhas no rescaldo de uma das maiores manifestações que já teve lugar neste "rectângulo de terra à beira-mar plantado". Fala-se em mais manifestantes que a revolução dos cravos do longínquo Abril de 74.

Não é nada que não tenha já aqui sido referido no passado neste humilde espaço. A convulsão social era previsível. As redes sociais e a comunicação social estabelecem continuamente termos de comparação com as realidades de outros países em situação económica (e.g.: Grécia e Espanha) e onde desde o primeiro momento em que foram anunciadas as medidas da austeridade, o povo saiu à rua manifestando o seu desagrado e contestando a mais que certa precaridade da qualidade de vida e perda de direitos adquiridos (e.g.: pensionistas). Em Portugal era uma questão de tempo até que acontecesse o mesmo. Numa escala diferente e com um grau de violência em consonância com o País de brandos costumes a que habituámos a comunidade internacional.

Era inevitável que algumas das medidas da austeridade avançadas fossem impopulares. Mas necessárias. Ninguém coloca isso em causa. Contudo, e não sendo contra a aplicabilidade das mesmas, faz-me alguma confusão que seja sempre o "mexilhão" (parafraseando um conhecido comentador político) a ter de pagar mais, quando os exemplos que deviam "vir de cima" teimam em não aparecer. A título de exemplo (um entre centenas) o gabinete do nosso Primeiro Ministro tem cerca de 33 viaturas automóveis à disposição. Entre carros de segurança, carros para os Secretários de Estado, etc.. Questiono-me..porquê? Há um custo mensal que tem de ser pago: Renda do carro + combustível + seguro + vencimento auferido pelo motorista. Multiplique-se por 30. Giro, não é? É um número francamente elevado e suportado pelos contribuintes. Talvez se pudesse pensar em começar a fazer o corte aqui mesmo. Dar o exemplo como deu o ex-Presidente da República Ramalho Eanes que abdicou do seu vencimento de ex-governante (e que lhe é por Lei) para apenas auferir o vencimento de militar de topo na reforma. Infelizmente não há muitas pessoas assim. Íntegras e verticais. E os muitos exemplos de despesismo replicam-se.

A "gota de água" foi a nota do aumento da contribuição para a "T.S.U" (Taxa Social Única) por parte do contribuinte privado - nós - e a diminuição da mesma contribuição por parte das entidades colectivas - empresas. E a água do copo verteu. Não dava para aguentar mais. Quando referi há pouco (início deste texto) que era de esperar a convulsão política, queria referir-me à serenidade com que os portugueses aceitaram durante largos meses o cumprimento do ratificado no memorando com a "troika". Que lhes fossem subtraídos os subsídios de férias e fosse aumentado o "IVA" na restauração, entre outros exemplos. Pacientemente se percebeu que o montante do "IRS" devolvido foi menor. E pacientemente se ía ouvindo a voz da Oposição. Umas vezes com razão outras sem, sendo que grande parte da responsabilidade do estado a que Portugal chegou...é culpa deste partido político. E curiosamente nunca são avançadas alternativas credíveis ao definido pelo actual Governo.

Assisti às imagens em directo da manifestação em frente à Assembleia da República. Pensei, para mim mesmo, que o direito à manifestação está consagrado na Constituição Portuguesa (Art.º 45º). O que não entendi bem foi o porquê dos polícias terem de ser apedrejados com calhaus da calçada. O polícia que faz parte do cordão policial na base das escadarias da Assembleia...está, a meu ver, a trabalhar. Como esteve a quase totalidade dos manifestantes (os que têm trabalho) durante a semana anterior. Faria sentido que os polícias que foram apedrejados fossem para a porta do trabalho dos manifestantes atirar pedras e tomates? Não. Não fazia. Porque razão o fazem então para com a polícia? Que está em cumprimento do dever e que zela pela ordem pública? Que culpa desta situação tem o polícia (que até tem filhos) e que está ali em trabalho? Sendo que em alguns momentos até vê a sua vida perigada? Não percebo. E menos ainda percebo o porquê dos "heróis" que atiram os tomates e as pedras terem a cara tapada. Têm medo de quê? Não vivemos em regime democrático desde há 38 anos? Então...se são heróis para pegar num calhau e arremessar contra um trabalhador que zela pela segurança e ordem pública...deviam fazê-lo com a cara destapada. É assim que os verdadeiros revolucionários fazem. Defendem uma causa de "peito aberto". Sem medos. Não foi isso que se percebeu no passado Sábado.

A zanga de "comadres" entre o actual Executivo e partido da coligação não é nada boa e muito menos abonatória no presente momento. Há quem avance a tese de que, não sendo verificado o actual momento...o Governo caía. Não faz sentido que em plena crise sócio-económica se aposte na consolidação da política externa. É importante que, na minha opinião e neste momento presente seja dado um sinal de coesão. De unidade. De "estamos juntos mais que nunca para o que der e vier". Afinal não. À semelhança do que já aconteceu no passado (e já habitual na política portuguesa), é tão mais fácil demarcar-se "à posteriori" de determinadas políticas tidas como impopulares e que até provocam a crispação pública do que estoicamente aguentar a onda de consternação pública. A vantagem? Obtenção de votos. E convido quem quiser (e se lembrar de o fazer) a ver os resultados do partido da coligação no próximo acto legislativo... Os números falarão por si. Por outro lado, e para nosso mal, a imagem que passa "para fora" é a pior que podia passar. Se os investidores estrangeiros mantinham até agora o cepticismo relativamente ao investimento por cá....agora mais do que nunca irão manter. Quem é que quererá apostar num negócio no Líbano neste momento? Quem é que quererá abrir um McDonald´s na faixa de Gaza? A ninguém. São realidades voláteis. Adormecidas. E que de um momento para o outro explodem. Com as consequências que todos conhecemos.

Tenho para mim que esta novela ainda agora começou. O facto da Alemanha referir que Portugal tem de continuar a cumprir o acordado com a "troika" ainda que seja conhecida a recessão económica em que vive, atesta bem a realidade que vivemos e com a qual teremos de lidar durante os próximos tempos. É importante perceber que há grupos sociais que estão a ser injustamente massacrados com estas medidas e que começam a perder a paciência. Falo objectivamente dos pensionistas. Pessoas que descontaram uma vida inteira (alguns deles têm de anos trabalho o que o Primeiro Ministro não tem de idade) para ter uma vida aprazível. E agora constatam que o "bolo" no final do mês é sempre inferior. Porquê? Porque o Estado não conseguiu encontrar outra forma de obter dinheiro rápido para cumprir o acordado com a Europa. Infelizmente, teve de sacrificar uma "franja" da nossa sociedade para que pudesse honrar os compromissos - não estou contra o objectivo final, estou contra a forma de o atingir.

Muita coisa fica por dizer. Espero que o Governo recue nas medidas avançadas e de uma vez por todas, e com coragem, mexa nos interesses dos grandes grupos económicos em vez de continuamente sacrificar aqueles que pouco (ou nada) têm para dar. E que são cada vez mais.

1 comentário:

Ana disse...

Como eu gostava de acreditar no corte da despesa, na redução de alguns "muitos" salários milionários, na efectiva cobrança de impostos onde o dinheiro "reside", mas com a minha idade há muitos anos que não acredito no pai natal. E estas novas medidas acabam por me lembrar uma parábola biblica que diz "a quem muito tem ainda lhe será acrescentado, a quem pouco tem até esse pouco lhes será tirado". Se passarmos os olhos nos nossos oitocentos anos de história percebemos que foi sempre assim o "povo" pagou sempre e continuará a pagar...