domingo, setembro 23, 2012

Tenho para mim que sou uma pessoa que pratica (e faz gosto) na leitura. Sempre gostei de ler, tenho de confessar. Há livros que nos seduzem e cativam mais que outros, também todos sabemos. E no texto de hoje decidi comentar o livro que (felizmente) terminei de ler há dias - "As Cinquenta Sombras de Grey".

Trata-se do primeiro volume (de um total de três) a ser publicados pela mesma autora - uma trilogia, portanto. Na altura em que comprei este livro (5ª Edição), ainda não havia uma crítica muito consensual. Ou por outra, contavam-se, naquela altura, pelos dedos de meia mão, as críticas depreciativas contrastantes com a maioria das críticas favoráveis. E naturalmente não fui indiferente a esse facto.

Globalmente, na minha opinião, o livro está bem conseguido. Um tipo de letra agradável, um bom espaçamento entre linhas e uma capa apelativa. Não detectei erros ortográficos de monta e/ou atropelos gramaticais que fizessem o "Camões-dar-voltas-na-campa". Dei conta do "suspense" tentado pela autora em algumas passagens e se em algumas consegue ser feliz, já noutras não o consegue. Falta de sentido de oportunidade.

Mais do que o estilo e a forma, interessa-me muito mais o conteúdo e a mensagem que se pretende passar ao leitor. E somos chegados ao ponto fulcral e que é o assunto desenvolvido neste livro: uma relação de dominação / submissão - também conhecido por "bondage" para aqueles que sabem um pouco mais sobre o assunto. E aqui começam algumas incongruências.

Lembram-se do tal "suspense" que falei acima? Pois é. É "hipotecado" quando, durante várias partes do livro se percebe a submissão de um dos personagens a um quase estado (e até anedótico) endeusamento de outra personagem. É ficcionado dir-me-á a maioria das pessoas. Bem sei e aceito que o seja. E às tantas, no próprio "bondage" acaba por haver isto mesmo. Não sou  apologista deste tipo de escrita. Torna-se cansativa. Torna a leitura demasiado óbvia. Na minha opinião, pouco ou nada acrescenta aos leitores - acho que a leitura de um bom livro deverá ter sempre associado um valor acrescentado para quem o lê e absorve a informação nele contida. E que não é mais do que aquilo que o autor pretende passar para o seu público-alvo.

A descrição de algumas cenas é detalhada e até bem conseguida enquanto que noutros casos é confusa e peca pela incoerência e o detalhe parco. Agora, finda que está a leitura do livro, não consigo perceber muito bem o porquê deste livro ser o "bem-mais-apetecido-das-mulheres-grávidas-e-mulheres-na-casa-dos-30-anos", como rezava uma das críticas que tive oportunidade de ler antes de decidir comprar o livro. Realizo portanto que uma mulher que não esteja grávida e/ou tenha uma idade inferior/ou acima da casa dos 30 anos...estará morta. Uma mulher com 42 anos já voltou à terra como semente. Pessoalmente acho que não faz qualquer sentido esta crítica. Asseguro que em parte alguma do livro vi qualquer alusão que me fizesse acreditar que uma grávida fosse ficar "encalorada" ou que uma jovem de 30 anos tivesse de ir tomar um duche de água gelada para igualmente lhe "passarem os calores".

Consigo compreender que este é o tipo de literatura que facilmente prende a atenção de alguém. Bem sei que não se fala de "bondage" à mesa da ceia de Natal (mesmo que até possa existir à mesa quem goste...). À nossa escala e derivado do facto do português típico ter uma mentalidade fechada (consequência directa dos 40 anos de clausura em que Portugal esteve mergulhado e durante os quais não se aquecia nas noites invernosas) este é um dos livros que com toda a naturalidade suscita o interesse dos(as) curiosos(a) e facilmente o catapulta para um "best seller". À semelhança do que se tem vindo a constatar relativamente à realidade internacional onde o livro vende mais que maçãs caramelizadas na extinta (e saudosa) Feira Popular.

Resumindo e concluindo, trata-se de um livro diferente e que, poderei dizer mesmo...de forma corajosa aborda uma temática que até aqui pouco desenvolvida ou explorada publicamente. Vale apenas e só por isso. Tudo o resto...é ficção a mais e exagerada...e perde por isso. Não comprarei os demais livros da autora por razões óbvias.

1 comentário:

Ana disse...

Como sou "leitoradependente" sim a palavra não existe eu inventei, desde o inicio do verão que pelas minhas incursões nos escaparates das livrarias, "as 50 sombras de grey" saltam-me aos olhos, peguei-lhe li a sinopse e pensei valerá a pena, parece aquilo a que apelido literatura "light", apesar do tema não o ser, depois numa revista qualquer li uma "critica" que dizia que numa determinada área geográfica dos EUA, as lojas tinham esgotado o stock de gravatas cinzentas, e pensei deve haver muita dona de casa desesperada lá no sitio. Acredito que ainda o lerei para tirar as minhas próprias conclusões, mas parece-me que o fenomeno de vendas se terá ficado a dever a publicidade bem feita aliada a grandes carências "afectivas" para não usar outro termo. E pela parte que me toca confirmo que as mulheres depois dos 40 não estão mortas, muito pelo contrário