domingo, dezembro 09, 2012

Começo por informar que sou completamente a favor da liberdade de expressão em toda e qualquer circunstância e/ou dimensão imaginável. Esta é a minha verdade e agradeço que seja retida ao longo de todo este meu texto.

Os meios de comunicação social mandam no mundo. Creio que não há qualquer dúvida relativamente a este aspecto. Contudo, e para mim, a forma como esse poder é conseguido e gerido faz-me pensar um grande bocado. Poderia aqui elencar vários exemplos que me parecem perfeitamente elucidativos da mensagem que pretendo transmitir, neste texto mas o chamado jornalismo de investigação bastar-me-á.

Já aqui escrevi em tempos umas linhas sobre o facto de nesta profissão (jornalismo) haver os bons e os maus profissionais. Como em tudo, de resto. Contudo, não me parece que pelo facto da Teresa (mulher-a-dias cá de casa) dizer mal de mim venha algum mal especial ao mundo. Certamente terá as suas razões e acredito que na sua esfera pessoal (que será tanto maior quanto maior fôr a sua rede de contactos pessoais e a sua vontade de dizer mal de mim) terá  sua impactância. Mas restringer-se-á a esse domínio da sua esfera pessoal. A Teresa (que eu saiba) não tem pressões ao nível de um Conselho de Administração para obter "share" ou objectivos mensais ao nível dos melhores. Também acho pouco provável que faça um "benchmarking" contínuo para saber o quão mal dizem as suas amigas dos seus patrões para poder conseguir dizer pior. Ou melhor. Tudo isto passa-lhe ao lado e não lhe interessa absolutamente. Apenas e só diz mal...porque sim. À sua dimensão como refiro atrás. É terapêutico dizer mal.

No mundo dos meios de comunicação social as coisas mudam um pouco de figura. O alcance e a fortaleza de determinada notícia poderá ter são francamente diferentes. Falo de um enaltecimento, um reconhecimento de um acto ou do mérito de determinada personalidade ou por outro lado, o enxovalhamento dessa mesma personalidade. E passo de imediato a explicar melhor o meu ponto de vista com uma situação concreta.

Imagine-se um Sr. Ramiro que tem um pequeno talho. Imagine o(a)  leitor(a) que gasta desse talho desde que se conhece como gente. Nunca lhe faltou um chispe ou uma farinheira "5 estrelas" para um cozido de Domingo. Sempre com a maior das delicadezas, trato fino e extremamente educado e pautando-se sempre pela máxima deferência. Afinal é isso que fideliza. Ir-se sempre ao mesmo talho (ou a outro estabelecimento) e ser-se tratado pelo nome. É engraçado.

Num certo e determinado dia o Sr. Ramiro tem, entre outros, um cliente especial. Um jornalista. É Natal, muita gente no interior do talho, muitas encomendas de perús e leitão para aviar além dos pedidos normais de carne / enchidos. Acontece que no meio desta azáfama toda o Sr. Ramiro troca dois recibos e pede ao tal jornalista que pague o leitão assado inteiro que a Dona Maria Virgínia encomendou na semana passada. Resultado: a despesa final das febras finas de porco que o jornalista tinha pedido para aviar quintuplica. Sim, aquelas que ía levar consigo para a cozinha da redacção da revista e pensar no tema que ía desenvolver.  Na mente deste profissional do jornalismo - que poderá ser (ou não) tortuosa  - conclui que tem ali um "furo" e que sem dúvida alguma o Sr. Ramiro é um caloteiro. Mais um tempo de crise. E temos aqui aquilo que poderá ser o mote de uma peça para essa mesma noite consubstanciada num evento único e que poderá marcar o "início do fim" de um talho que existe há mais anos do que aqueles que o jornalista tem de idade.

Analisemos o que sucedeu: o Sr. Ramiro não se enganou deliberadamente (vamos assumir esta tese que tanta vez acontece na operação de dar trocos). A quadra natalícia é sobejamente conhecida como sendo uma época em que toda a gente quer comprar prendas de última hora como se não houvesse amanhã. Igual raciocínio se aplicará a toda a azáfama necessária para aquilo que diz respeito às refeições para a família que lá vai jantar a casa. As pessoas ficam mais sensíveis e muito menos tolerantes com os erros de terceiros. A conjuntura assim o sugere. 

O tal jornalista, raivoso por achar que foi sacaneado / enganado, escreve um artigo sobre os trapaceiros. Genericamente, claro. E conta, na primeira pessoa, destilando o seu mais refinado veneno, o episódio que lhe sucedeu há umas horas atrás. Referindo objectivamente o Sr. Ramiro.

A revista para a qual o jornalista colabora costuma ter uma tiragem muito expressiva. É líder de mercado, o que "per se" significa que entre aqueles que compram a revista e os que a assinam....o Sr. Ramiro passa naquele momento a ser o talhante caloteiro e que é de evitar. E naturalmente que a clientela deixa de aparecer tanto. Passa a aparecer cada vez menos pessoas...até que só restam aquelas pessoas que não ligam puto a jornalistas cujo nome nem sequer "toca qualquer campaínha" ou simplesmente não leem jornais / revistas.

O que sucedeu ao Sr. Ramiro acontece todos os dias. Por vezes, derivado de enganos, há pessoas que passam de bestiais a bestas em menos de nada (sendo que o recíproco nem sempre acontece). E aquilo que me tira verdadeiramente o sono (aparte do bom nome de determinada pessoa passar a estar na lama) é que quando se chega à conclusão que tudo não passou de um erro...o mal está feito. Em alguns casos com danos irreparáveis e com uma reputação de anos...deitada por terra. Sem um pedido de desculpa.

Qual a solução? Não sei. Mas acho que há muito mau jornalismo nos nossos dias. E consequência dos maus profissionais...há vidas que podem ser severamente prejudicadas. Para sempre. E isto devia acabar.

1 comentário:

Maria Rita disse...

"Mulher a dias cá de casa"... está tudo dito!