domingo, abril 21, 2013

Até há uns dias atrás estive fora, na Alemanha, para, entre outras coisas, realizar uma inspecção física a um avião. 
Convém dizer que só quem não conhece os meandros da aviação vive no pensamento utópico de que os trabalhos de manutenção de uma aeronave acabam a tempo e horas. Lamento informar que não acabam. Há o chamado "imponderável" sendo que no mundo da aviação está sempre presente. Ao virar de cada esquina. Basta pensar que há vários tipos de inspecção preconizadas pelos fabricantes de aviões. Particularmente, há as inspecções de manutenção "pesadas" (que demoram vários dias) e para as quais os sistemas do avião têm de ser desligados: eléctrico, hidráulico, pneumático, etc.. Ou seja, quando se começa a instalar tudo de novo, na parte final da inspecção de manutenção, começam (ou podem) surgir as surpresas. Nesta minha partilha, adianto que depois de alguns "naturais" atrasos foi-me dada a oportunidade de realizar a minha inspecção física do avião.
A inspecção física de um avião é tipicamente efectuada por um inspector/auditor da qualidade. É alguém que, em consequência da sua ligação "nativa" aos referenciais normativos e regulamentação específica deste sector, detem um conhecimento superior comparativamente a alguém cuja função é apertar parafusos, substituir rodas ou ver o nível de óleo do motor. Não desvalorizando a importância de cada função. Mas essas dissertações sobre os vários "actores" da aviação deixarei para outra ocasião. Ao que interessa...
Finda a minha inspecção pedi a um dos meus colegas que estava comigo na Alemanha para me dar boleia até ao escritório (sito a uns 200 metros do hangar onde estava o avião). Quando se faz uma inspecção à noite e com parte do avião (nariz) fora do "hangar" e com chuva é normal que se leve algum equipamento de protecção e outro material específico que ajuda na inspecção. No meu caso concreto levava o "iPad", lanterna, telefone para fotos e colete com fitas luminescentes (vestuário obrigatório).
O meu colega deixou-me pois no escritório como referi atrás. Na medida em que fui à Alemanha por poucos dias não tinha um passe definitivo um "magneto" que permite abrir as várias portas do escritório. Ou seja, se por algum motivo saísse do mesmo não podia voltar a entrar. E claro que os meus amigos e amigas já adivinham o que aconteceu. Quando me sentei no meu lugar já no escritório e ía preparar-me para começar a fazer o redigir relatório percebi que me faltava o telefone. Pois. Ainda por cima um telefone novo. E com a agravante de não ter sido barato...
Comecei a rever os passos que tinha dado no "hangar".  Revi mentalmente todos. Comecei a pensar na eventualidade de ter deixado o telefone numa mesa, ou num dos porões do avião. Mas não me parecia exequível. Seria demasiado negligente e idiota. Mas pode acontecer, como é lógico. O cansaço acumulado e algumas horas devidas à cama podem condicionar comportamentos. E conduzir a alguns actos irreflectidos.
Uma das hipóteses que me ocorreu foi efectivamente o carro no qual o meu colega me tinha dado boleia. E enquanto escrevia no pc, tentando não ficar demasiado ansioso e começar a chorar convulsivamente pela perda do meu recente telefone, fui amadurecendo essa ideia. De ter deixado o telefone no carro. Ainda que me parecesse remota, mas pensei, confesso.
A questão no meio disto tudo é que não havia forma de contactar com os meus colegas e pattilhar com eles a minha angústia. A probabilidade de eu ligar e ser atendido por qualquer um deles era tão real quanto a possibilidade de ver o elefante "Dumbo" passar a voar à frente da minha janela. Ainda por cima com mecânicos do Cazequistão e Ucrânia a trabalhar no avião (eu falo melhor alemão que eles o inglês). E não, não falo nada de alemão...
A ideia do telefone estar no carro começou a martelar-me na cabeça. E o carro estava do lado de fora do escritório, mesmo ali ao lado. Levantei-me, olhei pela janela e vi-o. Um Opel Corsa preto, dos novos. Carro alugado, pois claro. E começou a ganhar forma a ideia de que tinha de saciar a curiosidade. Abri a janela. Rodei o punho e percebi que era "oscilo-batente". Rodei o punho de novo e abriu-se totalmente. Estamos a falar de uma janela que me dava pelo peito em termos de altura (não sendo eu um quarto de vigor). O que me sugeriu logo alguma força de braços. Para alguém que faça 50, 60 flexões por dia (não é o meu caso actualmente), seria certamente um bom pretexto para um exercício engraçado. Aqui para o escriba não. Para alcançar o parapeito da janela tive de trepar para a cadeira, pôr o pé esquerdo no canto da mesa e o direito no parapeito da mesa. Aqui percebi pela primeira vez naquela noite que a minha elasticidade já não é a mesma coisa de há uns anos. Logo a seguir percebi que a altura para o lado de fora da janela (exterior ao edifício) era mais alto do que eu pensava. Claro está que só percebi isto quando já tinha saltado. Quando caí no chão senti os joelhos aguentar o pêso mas também pensei que mais um salto daqueles e iria perceber a que sabe o solo germânico.
Apontei a lanterna para o escuro interior do Corsa. Não vi nada no banco onde tinha estado sentado. Devo ter ganho uns 15 cabelos brancos nesse preciso momento: Já em claro e lógico desespero..varrendo freneticamente o interior do carro com a lanterna vi-a. A capa castanha do telefone. E pensei que o mundo afinal até pode ser bom. E fiquei mais satisfeito e tranquilo. Até que o meu sorriso se desvaneceu quando olhei para a altura da janela. Mais alta que eu. 
Destemido, coloquei os dedos no parapeito (exterior) da janela. Senti o frio do metal. O parapeito interior era em pedra (mármore) e este era em metal frio. O que "per se" me sugeria que tinha de conseguir um salto rápido e certeiro. Foi rápido. Mas não foi certeiro. O impulso foi exagerado e quando pús o pé direito no tal parapeito de metal escorreguei (estava a chover), tropecei e devo praticamente ter feito um mortal para o interior da sala. Estava eu a recompor-me desta aparatosa cena digna de filme (e de alguns arranhões) quando passado 1 minuto entra um colega meu pela sala. Felizmente não viu nada do que tinha acontecido segundos antes. E acho que nunca irá perceber o que eu lhe expliquei visivelmente excitado.
Moral da História: Às vezes basta esperar mais dois minutos e diminui-se consideravalmente a probabilidade de ter de usar uma placa de dentes em consequência de uma queda aparatosa!

2 comentários:

Tété disse...

Isso é que foi uma aventura!! Caramba, só tu!

Filipa disse...

Gostava muito de ter assistido à cena do novo Super Herói....Joãozinho no seu melhor!!!