domingo, julho 21, 2013

Desde há algum tempo a esta parte (falo de anos) que passei a reparar na forma como as pessoas lidam com o que não é delas. Quer por via de não terem incutidos certos valores morais / responsabilidade, quer por via de não serem pessoas preocupadas com alguns problemas actuais (temática do ambiente). Dois simples exemplos abaixo:

Negligência

Várias são as organizações que têm uma frota de automóveis (quer caracterizados, quer descaracterizados, quer pesados, quer ligeiros, etc.) conduzidos pelos seus funcionários. Contudo, nem todos esses funcionários serão zelosos e respeitarão aquilo que efectivamente não é "seu". Concretizando com um exemplo para melhor explicar o meu ponto de vista...
Imagine-se uma empresa familiar de transporte de passageiros. Uma frota de 4 autocarros pesados de passageiros. Nos tempos difíceis que correm, esta empresa consegue "manter-se à tona" e mal ou bem paga atempadamente os vencimentos dos seus 8 motoristas, 1 telefonista, 2 mecânicos e 3 sócios-gerentes (irmãos que decidiram abrir a empresa). Por negligência (i.e. alcóol no sangue aliado a um eventual excesso de velocidade) um dos autocarros que liga Lisboa a Faro despista-se e mata 50 passageiros ali na zona de Ourém. Não sobrevive ninguém e diz quem viu que o autocarro seguia muito acima da velocidade de 60 km/H permitida naquele troço. A notícia assume contornos dantescos quando é noticiado o encarceramento de vítimas, incêndio do autocarro após despiste e ainda de crianças que não foi possível socorrer por via dos meios de socorro não terem sido suficientemente rápidos a chegar ao local. Ou seja, 50 pessoas que morrem carbonizadas presas num autocarro.
Crianças, encarceramento, pedidos de ajuda e impotência dos presentes, incêndio após despiste. Os ingredientes para que a opinião pública "crucifique" de imediato (e com razão) o motorista deste autocarro. Acontece que o motorista também morre no acidente. Conhecendo-se as causas (alcóol + velocidade) a opinião pública vira-se então para a empresa, que sendo uma empresa idónea, gerida por pessoas idóneas, sérias, responsáveis, acaba por ver a sua reputação, verticalidade e valores morais/éticos para sempre manchada(s) por esta triste e grotesca infelicidade. E aposto que não sobrevive mais uma semana. Saldo final: 50 passageiros mortos (+ motorista) e 14 portugueses no desemprego. Tudo devido à irresponsabilidade e negligência de uma só pessoa.

Poupança de Energia

Há muitos, muitos anos que me preocupo com a questão energética. A minha preocupação com esta matéria passou a assumir uma relevância acrescida quando, numa cadeira da faculdade (impactes ambientais) os alunos eram convidados a discutir em sala alguns detalhes relacionados com grandes projectos (e.g. instalação de parques eólicos, construção civil de grande monta, etc.). 
Um dos aspectos, entre vários outros, era efectivamente o aspecto do consumo energético. Naquelas aulas, em sala,  éramos convidados a fazer uma regressão mental de todo o processo de produção de energia, desde o enchimento da barragem até ao ligar do interruptor para iluminar um quarto de nossa casa (quando o mesmo está perfeitamente iluminado com luz natural). Ninguém (e sou tentado a dizer que eu serei a excepção à regra) pensa nisto com regularidade. Ou por outra, se preferirem, ninguém anda às escuras a pensar que não vale a pena acender a luz. Mesmo quando está tão escuro que não se vê nada. E apenas se sente a "dolorosa" pancada com o "dedão" na madeira dos pés dos móveis. Mas isso é um pormenor...que por acaso já aqui dei conta num texto anterior...
Por outro lado, acredito que a preocupação relacionada com a poupança de energia não figure no "top 5" das prioridades da generalidade das pessoas. Por outras palavras, acredito que não integre sequer uma preocupação enquanto....alguém está no seu horário de trabalho. Embora passe a ser uma questão prioritária se pensarmos no domínio privado desse mesmo alguém, ou seja, a casa, o lar dessa pessoa. Confesso que este tipo de "separação de águas" me faz arrepiar os (poucos) pêlos que actualmente tenho no corpo. Não faz qualquer sentido. Dois pêsos, duas medidas. O pensamento usual é qualquer coisa do género de "não é nosso não vale a pena a preocupação". Não concordo. Em última análise haverá algures uma factura a pagar. Quanto maior fôr o custo dessa factura (que será a empresa a pagar em última análise) maior será a alocação de recursos financeiros para o conseguir. E se pensarmos que se trata de um custo variável (calculado em função de uma maior necessidade de energia (i.e. utilização desregrada dos aparelhos de ar condicionado ao longo do dia, o deixar luzes acesas das salas não ocupadas, etc.)) certamente que a factura energética no final do mês a factura reflectirá isso mesmo. Agora...outro aspecto que as pessoas não pensam é que o custo do fornecimento da electricidade é algo que uma empresa terá de suportar sempre. Ainda que o mesmo seja tão elevado e que premente a dispensa de um ou outro funcionário para fazer face a essa despesa extra. Mas isso ninguém pensa. E por uns pagam os outros...

Muitos exemplos podiam aqui ser dados. Mas estes dois "espelham" um pouco aquilo que penso sobre a forma como as pessoas lidam com o que não é delas. Seja por negligência - e aqui poder-se-á pensar numa questão de educação (leia-se valores culturais intrínsecos ao indíviduo e responsabilidade consequente) e seja pela cultura ocidental (leia-se despesista) em que vivemos.

Sem comentários: