domingo, setembro 21, 2014

A cadelita

Estes últimos dias estive/estou de férias. Encontrando-me em período de férias naturalmente que é menor a rigidez dos horários e consequentemente permito-me um pouco mais de descanso pelas manhãs.
Um destes dias ouvi lá em baixo (no R/C) uma grande agitação. As duas empregadas cá de casa falavam alto em "cãozito" e também consegui perceber a agitação do Paco. Deixei-me ficar calmo e sossegado a assistir a mais um episódio da minha série. Pensei, na altura, que fosse alguém que estivesse a passear um cachorro que tivesse chamado a atenção de ambas.
Passados uns 25 minutos chamaram-me lá abaixo. Aparentemente o cãozito tinha sido trazido para dentro de casa (quintal) e o Paco estava ainda mais inquieto. Afinal, e logicamente, era o território dele que estava a ser invadido. E qual bom guardião tinha de perceber qual o "grau da ameaça". 
A porta de casa estava fechada para evitar que o Paco saísse e cometesse algum acto tresloucado tão normal em si. Abri a porta e esgueirei-me por entre uma nesga - tendo ficado surpreso com o facto de ter conseguido passar.
E lá estava "ele". Uma bola de pêlo tigrado de 4 patas. Que veio logo a correr na minha direcção. Dois meses de idade, pensei de imediato. E pareceu-me logo também ter um cruzamento com um "fila de s. Miguel" ou um boxer tigrado. Não ía ser um cão muito grande a atender pelo tamanho das pequenas patas brancas. Mas espevitado. Vivaço. Costumo pegar em halteres bem mais pesados, associei eu quando o levantei do chão e entendi que...... era "uma menina". 
Contrariamente ao que muitas pessoas imaginam, as cadelas são mais dadas aos donos que os cães. É típico do mundo canino. São melhores guardas, mais meigas e na generalidade das vezes mais fáceis de treinar. A cadelita em pouco tempo venceu o medo (tremor) quando realizou que deste lado (eu) não vinha qualquer perigo. Sinónimo de coragem e de rápida empatia. Fiquei um bom bocado com ela na mão e deliciar-me com o olhar de "olhos de leite". Sentia-me bem e ela também. Os cães sentem as boas (e as más) energias.
Libertei o Paco para perceber como era a ligação de ambos. Naturalmente que para o Paco, um cão de uma raça dócil, a menina era uma boneca. O Paco é abrutalhado. É um facto. Mas percebia-se claramente o seu cuidado em não pisar ou magoar a cadelita (que entretanto insistia em ficar por baixo dele..eventualmente à procura da mama da mãe para o leite).
Mentalmente tentei adivinhar de qual dos meus vizinhos poderia ser a cadelita. Não consegui chegar a uma conclusão clara e inequívoca. Lembrei-de de um campo de futebol perto de minha casa onde, por vezes, uns cães que lá estão têm ninhadas. Pensei também que era muito pouco provável que uma cadelita com aquela idade conseguisse perfazer a distância que separa a minha casa do campo  de futebol sozinha (na medida em que ainda é uma distância considerável).
Com a menina na mão fui ao campo de futebol ver se lá pertencia. Pelo que percebi quando lá cheguei, uma parte do campo de futebol (bancadas) está em obras. Os homens das obras que lá estavam não sabiam de ninhada nenhuma. Um deles (aí com uns 30 e poucos anos) pegou na cadelinha e começou aos beijos à mesma. Disse-me também que a levaria para casa se não tivesse duas cadelas, uma gata e uma iguana. Tem um zoo em casa portanto. Não pertencia ali. Voltei para minha casa com a cadela na mão.
A dada altura, no caminho para casa pús a cadela no chão. Comecei a andar. Passou por baixo de todos os carros que estavam estacionados na minha rua. Todos. Sem excepção. Esperava um pouco, chamava-a e lá vinha ela atrás de mim. Também me ía fazendo cair umas 3 vezes porque se enrolava nos meus pés....
Chegado a casa deixei-a no chão do quintal. Atacou-me umas 4 vezes os atacadores dos ténis que tinha calçado. Normal. Acham sempre imensa piada. Durante esse período tomei também uma decisão. Que a cadelita não poderia ficar comigo nem mais um dia. Por duas razões: não tenho o tempo necessário para cuidar de uma cachorra e porque o próprio do Paco se podia entusiasmar, dar-lhe uma patada na brincadeira e arrancar-lhe a cabeça. Por outro lado preferi entregar a cadelinha logo para não se passar o final de semana e me afeiçoar à mesma. Foi o melhor. Uma das empregadas levou-a dentro de uma caixa de cartão e seguramente que lhe vai arranjar um bom lar.
Mais tarde desenvolvi a teoria segundo a qual a cadelita foi trazida por uma das empregadas (que não o assimiu). Alguém lhe terá oferecido a cadela e entendeu, na medida em que tenho o Paco cá em casa, avançar com a teoria de que tinham deixado o cão ali à porta de casa. Era uma teoria boa...mas algo rebuscada. Enfim...foi o melhor que fiz.

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