domingo, julho 12, 2015

Barbear à maneira antiga

Desde há um mês (sensivelmente) que comecei a fazer a barba à "maneira antiga". Exactamente. Mesmo essa que estão a pensar: pincel, espuma e uma daquelas máquinas que usam as lâminas espalmadas com dois gumes. Que cortam bem. Demasiado bem como veremos mais à frente.

Como em tantas outras coisas que acontecem na minha vida, não há necessariamente uma razão especial  para ter aderido a este novo ritual. Não terá sido o argumento da poupança significativa que me fez aderir a esta moda (embora seja consideravelmente mais em conta). Da mesma acontecia com a "multi lâminas" normal e que facilmente se adquire numa grande superfície. Mas eu explico tudo.
A preparação do barbear
Fazer a barba (ou desmanchar a barba como dizem os mais puristas) tem que se lhe diga. Obedece a um sequência religiosa de passos. E para a qual necessário reter alguns detalhes específicos. Por exemplo, nunca se faz a barba antes de um banho bem quente com a pele quase a estalar tipo leitão da banho a cara tem de ser (novamente) banhada com água tépida (como se fizesse alguma diferença) para abrir ainda mais (?) os poros.  E finalmente a lâmina também tem de passar pela água quente. A ferver, claro. E se se conseguir abrir os olhos. Nem sempre consigo imediatamente porque tenho as pálpebras adormecidas com o calor da WC. Além de começar agora a perceber os formigueiros que sinto nos dedos....
O pincel
O pincel tem que se lhe diga. Comprei um pincel de pêlo de texugo (disseram-me que era do pêlo desse bicho). Como nunca vi um texugo à minha frente, o pincel bem pode ser pêlo do rato que diria na mesma que é macio e que espalha bem o sabão na cara. Mas é um objecto giro e pelos vistos é o que se usa mais nestas andanças.
O sabão
Permitam-me que neste momento me levante da cadeira e com o peito inchado partilhe que uso um sabão italiano. A marca é "Figaro". Não sei bem se é uma boa marca boa ou má marca. Tem um cheiro neutro ligeiramente mais aromatizado que o "sabão macaco" (também conhecido como sabão azul e branco) e não faz muita espuma. Ou seja, evito cortar o que não devo (ou o que não é suposto como a veia carótida ou um lóbulo de uma orelha). Mas confesso que me sinto sempre importante (e até adulto) quando vejo a cara bem ensaboada. 
O escanhoar
E eis que chegamos à parte mais delicada. O escanhoar (gosto da palavra) da barba. É para o qual é necessária mestria na mão. Doçura e delicadeza na forma como se pega na máquina. Meiguice. A mesma que os barbeiros têm quando usam as lâminas nas navalhas (sempre fiquei deliciado a vê-los usar a navalha).  Pelo que li e vi nos cerca de 20 vídeos (ou mais) estas máquinas fazem o trabalho  todo sozinhas. É deixar a lâmina escorregar pelo sabão e os pêlos desaparecem. Fiquei com essa ideia. A minha experiência? Bom, resume-se numa singela palavra...."sangria". 
Todo o santo dia. Sem falhas. Desde há duas semanas a esta parte que não há um dia (um que seja) em que não faça pelo menos 4 cortes no pescoço. Esta área é particularmente sensível. Por outro lado parece-me igualmente que os pêlos que aqui tenho no pescoço não crescem todos na mesma direcção. Só assim se justifica o ter de passar a lâmina  20 vezes na mesma área para ficar com a pele lisa. E massacrada. E com os conhecidos cortes. Naturalmente.
Vou demorar mais uns tempos a ficar profissional. Talvez uns largos tempos até que a barba seja feita à "moda antiga"...sem cortes!

1 comentário:

Cláudia Macedo disse...

Extraordinariamente bem escrito. Cativou-me pelo entusiasmo do autor e porque me fez viajar no tempo. Quando em menina ia com o meu avô à barbearia e ficava maravilhada com o ritual do "Barbear à moda antiga". É extraordinário quando um texto nos faz viajar no tempo...