domingo, setembro 11, 2016

Limites individuais

Os últimos dias têm sido marcados pelas várias notícias (e artigos de opinião) sobre as lamentáveis mortes dos 2 soldados que frequentavam o 127º Curso de Comandos de Portugal. Aproveito o momento para aqui deixar os meus pêsames às famílias de ambos.
Estou certo que irá surgir muita discussão em torno deste tema. Para mim, o cerne da questão reside nos limites individuais. E que em ambos os casos foram superados. Consciente ou inconscientemente. 
Perceber, individualmente, onde estão os limites do nosso corpo, é um dos aspectos mais importantes que todos nós temos de ter sempre presente. Por outro lado, o corpo de instrutores deve conseguir perceber - por via de treino específico para isso - quais os limites de cada instruendo. 
Na minha perspectiva e assumida forma (leiga) de ver as coisas, é isto que interessa avaliar. Esta análise possibilitará retirar ensinamentos que impossibilitem a recorrência deste tipo de episódios no futuro.
Mais de 100 cursos desta tropa especial foram até hoje realizados. Trata-se de uma tropa especial (à semelhança de outras como sejam os fuzileiros, rangers e pára-quedistas) que tem como missão a intervenção em teatros de guerra complexos, tipicamente via terrestre. Teatros onde as condições climatéricas são normalmente adversas (i.e. altas temperaturas, frio glaciar, chuva intensa, lodo, poeiras, etc.) e não onde não há lugar a complacências. Quem se junta à família de Comandos, sabe que a vida facilitada deixa de existir a partir do momento em que deixam de ser civis.
Um dos momentos em que cada indivíduo pode ser testado e avaliado - para ser conhecida a sua capacidade de resistência aos meios que refiro acima - é na recruta. Outro será no treino contínuo que as tropas especiais têm de realizar para estarem aptas para reagir a qualquer situação e em qualquer ambiente. E é aqui que poderá residir uma das razões para as mortes.
Como em tudo, o ser humano tenta sempre superar-se. Acontece, como se sabe, em qualquer actividade desportiva e até profissionalmente. Só assim é possível melhorarmos e estarmos mais aptos a fazer face às adversidades e desafios do dia-a-dia. A realidade do curso de Comandos não é diferente. É preciso ter muita força de vontade, espírito de sacrifício e de elevada abnegação. Contudo (e porque há sempre um mas), também é necessário saber parar. Dizer que não somos capazes. E informar o responsável local dessa mesma situação. Ainda que isso possa significar a eliminação do curso. A morte não pode significar o limite testado. 
Não me vou alongar mais até porque neste momento não são conhecidas as causas de ambas as mortes. Neste momento, avançar teorias é pouco honesto. Há alguns detalhes que só o corpo médico e comunidade científica poderão ajuizar e avaliar com conhecimento de causa. 
Em todo o caso, pessoalmente, entendo que jamais e em tempo algum deve ser colocada em causa a extinção do corpo de Comandos.

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