Tenho para mim que para se ser líder, são necessárias duas características nucleares: ter pulso e ter coragem. O resto é acessório.
Já lidei com vários tipos de liderança. Algumas com as quais me identificava mais, outras com as quais me identificava menos. O tema é vasto e obriga-nos, inevitavelmente, a aludir a características intrínsecas das pessoas e que podem ser trabalhadas com treino.
Por um lado, há os traços de personalidade comuns que encontramos nos líderes. O ter pulso, o ter coragem para liderar em tempos difíceis e com equipas desmotivadas - daí ser preponderante a capacidade de motivação. O conhecimento das características individuais dos membros das suas equipas, o ser elemento agregador, possuir experiência de coordenação de equipas, entre tantas outras características que tipicamente são perceptíveis nos bons líderes.
Por outro lado, não havendo os tais traços "normais" e desejáveis, é necessário que seja tornado possível incutir ou, através de treino específico possibilitar haja meios alternativos para a consecução do mesmo objectivo. Reformulando, se uma determinada pessoa (enquanto líder) não se consegue impôr ou fazer valer o seu ponto de vista perante algumas pessoas com quem trabalha, deverá ter formação ou treino especializado para que lhe seja possível o reforço dessa sua característica.
Questão: o que acontecerá se dermos as chaves de um Ferrari a um macaco? Teoricamente, nada. Refiro propositadamente o "teoricamente", porque com treino talvez pudesse haver uma acção que fosse ao encontro das nossas pretensões.
Como já vem sendo natural em mim, consigo perceber duas formas de abordar a questão: pessoas que não tendo perfil de líder foram designadas como tal - tipicamente pessoas que têm experiência profissional relevante para a função e como tal são elegíveis para a mesma - e que nunca serão bons líderes, por via de não terem as tais características ou o perfil de líder. São bons executantes. Só isso, sem mais. E este é o grosso dos líderes que temos por cá (Portugal). Pessoas que ocupam cargos de responsabilidade só porque...trabalharam em algo parecido (experiência profissional). Mas sem todo o necessário complemento e bagagem para ser líder. Com uma grande probabilidade de até ser a antítese (i.e. tímido, ansioso, inseguro, falta de confiança em si, etc.).
Por outro lado, há pessoas designadas como líderes e que têm experiência profissional nula ou perto disso. Bom, o "caminho das pedras" nestes casos será naturalmente mais complicado. Para começar, designar um líder numa organização em que há outras possibilidades válidas para esse cargo, pode causar algum ruído e mal estar. Ainda derivado desta situação, a aquisição de conhecimento não será fácil porque o conhecimento detido por outras pessoas não será partilhado e consequentemente a conquista do "espaço" e reforço da posição será demorado. Se é que tal será possível.
Hoje em dia há no mercado empresas de formação com profissionais especificamente vocacionados para treino de pessoas que têm atribuições profissionais de líderes. Contudo, há uma fortíssima aversão ou relutância por parte das organizações em cabimentar verba para este tipo de formação. À boa maneira portuguesa, as organizações entendem que as tais características se tiverem de ser melhoradas, que o farão por si. Erro crasso. E está à vista o resultado...