domingo, fevereiro 23, 2020

Acidente de Viação

Esta semana foi marcada por um violento acidente na 2ª Circular que ceifou a vida a 3 pessoas. Curiosamente é uma das vias de rodagem mais mortífera do nosso País e poucas pessoas conhecem esse detalhe. Neste caso em particular, podia ser mais um acidente, entre tantos outros que aqui já tiveram lugar, mas revestiu-se de alguns pormenores que o tornaram (bem) mediático.

1. Local do Acidente
Não podia ser uma das artérias mais movimentadas da cidade de Lisboa. A qualquer hora do dia há movimento. É uma artéria larga e convidativa a alguns excessos. Existe um radar de velocidade fixo, numa zona perfeitamente identificada e apenas num dos sentidos de circulação (i.e Benfica-Aeroporto). Curiosamente no sentido oposto em que circulava este carro. Pelo aparato do acidente, bem como a hora a que o mesmo tem lugar (por volta da 0100H da passada Sexta-Feira) não sei até agora como não foram apanhados inocentes que circulavam naquela zona e aquela hora da madrugada

2. Velocidade
É obviamente a causa deste acidente. Atire a primeira pedra quem nunca excedeu os limites legais de velocidade. Costumo dizer que o fiz - muitas vezes mesmo - desde que tenho carta de condução. Até que fui detectado em excesso de velocidade, no Alentejo, há uns anitos. E não está em causa o valor da coima que tive de pagar quando me chegou a mesma a casa. Está em causa sim, o ter ficado com pena suspensa durante uns meses e aquela sensação de "invencibilidade" ter sido beliscada. Foi o suficiente para me "acertar o passo" e ter mudado radicalmente o meu estilo de condução. Mas esta é a minha experiência pessoal, que no fundo, foi pedagógica.

Já cheguei a comparar a velocidade a alguns vícios. Isto sem entrar no detalhe das hormonas que são segregadas ou da clássica "visão de túnel"e que fazem com que quem conduz depressa o goste de fazer. Estes serão dois, entre vários aspectos, associados à condução em alta velocidade. O que quero dizer é que são estas sensações em que alguém se vicia  quando tem um carro bom (leia-se potente e rápido) nas mãos. Por outro lado, a questão do "respeito pelo grupo". Ou seja, alguém que tem acesso a bons carros e que conduz rápido (não necessariamente bem ou de forma segura) é tido como alguém que sabe o que faz. E cujos feitos falam por si. Em psicologia de grupo isso sugere o nome de líder. Alguém mais apto. Mais capaz.

Há um vídeo a circular em que este carro atinge 300 Km/H na Ponte Vasco da Gama. Presumo que com as vítimas mortais deste acidente. Diz a comunicação social que foi um vídeo feito momentos antes de chegarem à 2ª Circular. Desconheço e para o caso, sinceramente, não vejo qualquer importância. O que é facto é que há um filme deste carro (e possivelmente o mesmo condutor) a circular a essa velocidade. E é um vídeo que é publicado na rede social de um dos ocupantes desse carro. E isto leva-nos ao 3º ponto...

3. Carros à venda em Portugal
Poderá parecer um lugar comum, mas não tenho como não abordar este tema. Se por um lado o limite máximo de velocidade permitido em Portugal (i.e. auto-estrada) é de 120 km/H, porque razão permite o Estado Português que sejam comercializados carros que atingem 300 Km/H?  Se pensarmos um pouco, é o mesmo critério que se aplica quando o mesmo Estado permite que seja vendido tabaco em território nacional, sendo conhecidos os malefícios para a vida saúde humana. Há um denominador comum: impostos. Leia-se receita para o Estado. Proibir quer a venda de carros caros (tipicamente os mais potentes e rápidos) ou proibir o tabaco seria perder esta fonte de receita do Estado. Não consigo imaginar o rombo que seria.

4. Homenagem
Li hoje na internet que houve um movimento de homenagem às vítimas mortais deste acidente. Pergunto: homenagem porquê? Porque alguém teve um acidente violento, provocado por uma velocidade largamente excedida numa das mais mortíferas artérias da cidade de Lisboa? Ou pelo facto do carro ter capotado e ter embatido num pórtico, terem sido projectados dois dos passageiros que no seu interior circulavam? Perdoe-me Deus, mas não consigo lamentar estas mortes. Tenho pena sim, dos que cá ficam e vão viver para sempre a dor de terem perdido pessoas de quem gostavam.

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