A figura da porteira nos prédios onde habitamos, no meu entender, é uma actividade que já não alicia ninguém no seu juízo perfeito. Ninguém gosta de ir esfregar escadas de joelhos e levar com o fedor activo da lixívia. Hoje em dia não é assim...Há uns anos era. Houve há umas décadas atrás um fluxo migratório de casais oriundos de aldeias do nosso maravilhoso Portugal, em direcção às cidades, em busca de melhores condições de vida. Cheios de boas intenções e com vontade de trabalhar. Daí, em alguns casos, era possível ver que certos rituais nunca se perdem - como por exemplo, cuidar da horta. Pelas cidades foram ficando estes casais, como "caseiros" dos prédios, tendo (ou não) a sua descendência e até regressarem de novo "à terra". Um ciclo completo, portanto.
Longe vai o tempo que a Dª Palmira e a Dª Soledade, porteiras dos dois prédios onde vivi, conseguiam o minha atenção. Em grande parte, e no primeiro caso, porque a minha mãe de forma incansável, abriu o precedente de as ouvir durante horas sem fim. Digamos que era "apanhada" ao entrar para o prédio sem fuga possível. E assim sendo, ao longo dos anos foi sendo cultivada essa prática.
É claro que este precedente da minha mãe teria sequelas incontornáveis para mim. No auge dos meus 10/11 anos tinha sem dúvida uma ordem de soltura mais regrada. Tornava-se muito mais fácil para a minha mãe, estando no R/C, controlar os atrasos para os banhos e subsequente hora do jantar. Por outro lado, a Dª Palmira via na minha mãe uma aliada e muitas queixas fazia, desde ter decidido com amigos meus fazer do terraço um campo de futebol (partindo várias vezes as plantas dos canteiros), ou que tínhamos andado de bicla e feito derrapagens no mármore do terraço tão extremosamente esfregado semanalmente com lixívia.
Compreendo igualmente hoje em dia, e a esta distância, que não fosse muito saudável para o coração do pobre Sr.Leonel (marido da Dª Palmira) que eu e o meu irmão tenhamos decidido a dada momento que era perfeito o corta-mato para as traseiras do prédio através da sua horta. Valeu-nos alguns impropérios por parte do mesmo...
Numa rua com vários prédios, são naturalmente criadas algumas animosidades com algumas porteiras, e naturais empatias com outras. Tipicamente, foram mais as "arquiinimigas" que criei do que aquelas que gostavam do grupo de índios ao qual pertencia.
Uma característica que me ficará para sempre (sendo sensitivo), é o costume de ao longo dos anos ter conhecimento do que ia ser o almoço e jantar em casa das porteiras que falo acima. Sempre achei esta partilha importante e congredadora do espírito de condóminos dos prédios, e no sentido de "aproximar" o R/C do 10º andar. Sempre achei muito bem que todo o prédio soubesse no R/C não se passava fome. E que em casa da Dª Palmira, às Quartas-Feiras, o jantar era invariavelmente favas com chouriço.
Enfim...coisas que já não voltam!
Próximo Tema: Férias




















