Tenho a violência doméstica como um tema muito delicado. Por várias razões. A primeira das razões, prende-se com o facto de 98% dos casos de violência doméstica ser perpetrada ou consumada por homens. Enoja-me este tipo de homem. Cobarde, sem escrúpulos, e que entre quatro paredes sabe que pode dominar e magoar a mulher. Em segundo lugar, a não comunicação destes actos de violência às autoridades competentes...já lá vamos. Em terceiro e último lugar, a forma displicente como a justiça portuguesa (mais uma vez) actua nestes casos.
Quanto ao tipo de homem execrável que pensa, sequer, em infligir a dôr a uma mulher, não me merece qualquer comentário. O egoísmo vai tão longe, que acabam por ser calculistas, e são de tal forma medrosos, que só conseguem fazer mal onde outras pessoas não podem ajudar, ou seja, tipicamente nas suas casas.
Relativamente à não comunicação, confesso que compreendo o lado da mulher. Por vezes, o amor que sente pelo parceiro faz com que releve a importância deste acto medíocre. Por outro lado, quando violentada/agredida, a mulher equaciona no que perderá se apresentar queixa do parceiro às autoridades. Na maioria das vezes trata-se de um pai de família, marido. A partir do momento em que a queixa entra na autoridade, tem início um inquérito. Pode ou não culminar em tribunal. Conheci dois casos, num passado longínquo, em que as mulheres foram retirar a queixa (depois de terem apresentado), porque os marido começaram a coacção psicológica em casa e porque ameaçaram cortar com uma série de facilidades. Não intervi porque qualquer uma das pessoas em causa me pediu encarecidamente para o não fazer. Nos dias que correm, sendo que as coisas não estão fáceis, preferiram continuar a viver o inferno em detrimento de dar continuidade ao processo judicial. Errado. Mas senti-me de mão atadas.
Ouvi há pouco nas notícias que desde o início do ano já 15 mulheres perderam a vida vítimas de violência doméstica. Fez-me pensar que realmente Portugal é óptimo para todo e qualquer animal destes, que consegue este tipo de feito - bater ou violentar uma mulher. Só Deus sabe quanto tempo aguentaram em silêncio as mulheres. Só Deus sabe quantas outras mulheres viverão martírios similares nos seus quotidianos. Não hipotecando o seu papel de mãe, de boa profissional e ainda de mulher. Ainda que para isso seja obrigada a ter um sorriso dosponível todos os dias e tenha de reprimir o choro, a raiva...e acima de tudo, quando há filhos, não se ir abaixo à frente deles.
À semelhança do que acontece em tantas outras matérias, não interessa mais legislação dedicada feita num gabinete com ar condicionado. Interessa dotar os assistentes sociais e as autoridades de ferramentas que possibilitem às vítimas sentir conforto. Não se sentirem angustiadas e desprotegidas se tiverem de relatar uma ocorrência destas. Não interessa continuar de forma leviana a poder proporcionar uma boa estadia na prisão aos homens detidos por violência doméstica. Muitos dirão que estão arrependidos e que não voltam a fazer. Contudo, do outro lado, o mal está feito. Irremediavelmente, em 100% dos casos. Se as mazelas físicas desaparecem com o tempo (a maioria), já as psíquicas não desaparecem. E são na maioria das vezes aquelas que ficam para sempre. Infelizmente.
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