A mais velha profissão do mundo. Alvo de injúrias, acusações por parte da sociedade mais conservadora e consequentemente objecto de recriminação. E veio para ficar.
Vejo cada vez menos prostitutas na rua. Continuam a existir, é verdade, mas em menor número. O que não quer dizer que tenham optado por regressar aos estudos ou que alguém repentinamente se tenha lembrado dos seus nomes para ocupar uma vaga lá na empresa. Estou em crer que são cada vez menos as que dão a cara "na rua", adoptando ao invés a descrição. Aguardam a abordagem do cliente dentro do seu próprio carro, ou disponibilizam o seu contacto telefónico e assim passam a marcar os encontros.
Durante algum tempo, com a rapaziada lá da rua, e numa altura em que só um ou dois elementos do grupo tinham carta de condução, íamos no seu carro chatear as "meninas" que paravam ali perto do Instituto Superior Técnico (IST). Algumas delas apenas com dois dentes na boca, outras com pobres figuras de tão magras, eram regra geral as escolhidas para a chacota do grupo. Gozar com quem trabalha, portanto. Havia as normais perguntas "tipo", que eram colocadas pelo elemento que ía ao lado do condutor, e sempre tendo em consideração os 5 elementos do carro. É claro que o riso dentro do carro era contido durante a conversa entre esse elemento e a menina, e depois das respostas e arranque com as rodas do carro a patinar, havia a explosão do riso e gáudio geral. IST e Avenida da Liberdade eram dois dos locais onde íamos gozar com regularidade. Há uns anos atrás era uma fase pela qual todos os homens passavam. Ir de carro fazer o passeio dos tristes depois do jantar e gozar com as "meninas".
Nesta última artéria de baixa pombalina, havia a "nuance" de se poderem ver autênticas "avis raras"...os travestis. Sendo que era mais longe, as abordagens eram em menor número. Houve um episódio em que a coisa podia ter corrido mal, que meteu uma perseguição de um chuleco ao nosso carro. Durante vários quilómetros. Não terá gostado do facto de durante semanas e semanas passarmos pelo mesmo sítio e gozarmos com as duas "meninas-meninos". Se a memória não me trai, terá sido por essa altura que acabaram as nossas incursões nocturnas.
Anos mais tarde tive oportunidade de conhecer outro mundo. O da prostituição a sério. Sem ser o tipo de abordagem ridícula acima referida, com carros e perseguições à mistura, foi-me dado a conhecer que há um submundo nocturno que consiste em dar prazer. Pago. E bem pago, em alguns casos. Com cicerones que conheciam muito bem os meandros do negócio, visitei o "muito bom" e o "muito mau". Realidades distintas para bolsas/clientes distintas(os). As diferenças são da noite para o dia. No primeiro local, chegado ao local, entrega-se a chave do carro ao porteiro e entra-se no local o mais depressa possível (para evitar ser-se visto). No segundo caso, o protocolo de entrada obedece a outros trâmites (curiosamente), sendo que o telemóvel é normalmente deixado à porta (a juntar aos vários que o porteiro já tem em sua posse). Predominantemente frequente pelo "pessoal da pesada", percebe-se facilmente que não tem qualquer problema em resolver os problemas com as mãos, ou "outro tipo" de utensílio, caso seja necessário e coisa descambe. Reza a lenda que o tipo que está atrás do bar (e-que-tem-o-cabelo-como-o-Marco-Paulo-há-30-anos-atrás", tem uma shotgun (espingarda de canos serrados) escondida debaixo do balcão. Para o que der e vier..
No primeiro caso, as coisas correm de forma diferente. Não há armas nem tão pouco são conhecidas lendas. Há contudo a certeza que para se "sair acompanhado" (a preços de há uns largos anos atrás) era necessário desembolsar cerca de 50 contos na moeda antiga ou seja, qualquer coisa como 250 euros na moeda actual. Isto com as meninas mais baratas, as que estão por ali a dançar no meio da pista e que se vêm sentar na mesa dos recém-chegados clientes e a quem é necessário pagar uma taça de espumoso que nunca será menos de 5 euros.
Conversa de circunstância, combinação de detalhes e voilà...sai-se acompanhado, paga-se antecipadamente à boca do multibanco mais próximo e tem lugar o "serviço" numa pensão próxima. Claro que o preço do quarto da tal pensão corre por conta do cliente. A profissional apenas faz "o serviço". O preço aumenta substancialmente quando se introduz a palavra "acompanhante" e "luxo" na mesma frase. Estas "profissionais" não dão a cara, regra geral bebem Veuve Clicquot Ponsardin ou Moët & Chandon e só respondem após marcação telefónica. Reservando-se ao direito de recusar, como é óbvio. Umas horitas podem ascender a alguns milhares de euros. Por dia.
Tenho lido que hoje em dia há pessoas que exploram a hipótese de entrar para este mundo. A precaridade dos vencimentos ou ausência de trabalho, as contas para pagar e o querer poder continuar a poder proporcionar o mesmo estilo de vida aos filhos, são factores que contribuem para que esta possibilidade ganhe força. Não quer dizer que vá seja concretizada..mas em alguma altura da sua vida já foi ponderada.
Por outro lado, há o chamado jornalismo sensacionalista. Regularmente surgem no mercado livros de jornalistas que "heroicamente" dizem ter passado horrores para que pudessem experimentar o que é vestir a pele de uma prostituta. Basicamente, entregaram o seu corpo em prol do cabal conhecimento de realidades que não conheceriam tão bem de outra forma. E este tipo de pensamento, que conduz subsequentemente à redacção de um livro tem o condão de me fazer revirar os olhos. Quem a obrigou? Se lhe custava tanto, porque é que viveu esta vida durante meses/anos? Para ilustrar melhor o que uma prostituta vive e tem de passar? Podia ter entrevistado alguma, parece-me. Considero este tipo de "reportagem" completamente errado e não é mais que a realização de alguma fantasia sexual pessoal. Vou mais longe. O dinheiro que foi ganho...reverte a favor de quem? No caso das jornalistas...em bom rigor deveria reverter a favor dos jornais! Não me parece que tal aconteça.
E é este o objectivo da prostituição. A razão pela qual homens e mulheres, quer novos, quer velhos não deixam esta actividade. É uma actividade rentável. Não são pagos impostos. Em alguns casos, consegue-se auferir num dia o que um engenheiro no topo da carreira não consegue auferir num ano. Ainda que para isso se tenha muitas vezes de esquecer o orgulho e de se sujeitar a maus tratos físicos ou psíquicos. Ou ambos.
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