A semana passada, em trabalho tive de me deslocar a Caracas (Venezuela) e a Curaçao. O objectivo era auditar duas empresas de manutenção e ainda dar formação a mecânicos locais.
Caracas

Começando pela Venezuela. Caracas tem o típico clima que detesto: muito quente e abafado, juntamente com uma humidade altíssima. Resultado? Basta sair do hotel, de banho tomado, para se ficar a suar de novo. No presente momento, a Venezuela tem uma inflacção que ronda os 800%. Os preços de alguns produtos (i.e. bens essenciais) sofrem aumentos todos os dias.
A título de curiosidade, no dia 17.10.17, o salário mínimo na Venezuela era de 325.544 Bolívares (Bs) - moeda oficial da Venezuela. Comparativamente à nossa moeda (€) a correspondência é de 1 € = 39.000 Bs. Isto no mercado oficial. Há um imenso mercado paralelo (ou mercado negro) onde o valor sobe exponencialmente. Agora, e para se ter uma ideia do preço dos produtos: 36 ovos custam 36.000 Bs, 1kg de carne tem um custo de 50.000 Bs, 1 pão são 7.000 Bs, 1 Kg tomates são 15.000 Bs e um 1kg de arroz tem um preço de 15.000 Bs. Por descargo de consciência tentem realizar o exercício de preparar uma refeição (ou duas) com o salário mínimo. Complicado, certo? Também me parece.
A Venezuela vive presentemente um momento complexo. Politicamente complexo. Foi sujeito a um sufrágio (acto eleitoral) muito recentemente sendo que o actual partido político - e responsável pela depressão que o país vive actualmente - conquistou (curiosamente) 17 dos 23 centros eleitorais. Curioso, não? Pois. O povo venezuelano também acha o mesmo e avança com manipulação de resultados à boca das urnas. O mais grave, e agora falando do meu sector (aviação), é que muitos operadores internacionais que voavam para Caracas, deixaram de o fazer por via da insegurança que se vive e da instabilidade social sentida nas ruas. Como consequência deste êxodo ou não investimento na rota de Caracas há uma natural contribuição para o agravamento da situação económica do País.
O mais curioso é que a Venezuela é um país riquíssimo. Com riqueza natural abundante, como seja petróleo e aço. Entre outros. Com 90,00€ podia-se, à data que referi acima, encher 1.200 vezes o depósito do meu carro. É verdade. O custo do litro de combustível é ridiculamente baixo.

A arquitectura e as ruas dificilmente poderia ser pior. A zona do nosso hotel era calma e com harmonia arquitectónica na envolvente, mas os demais locais por onde passámos, não o eram. No primeiro dia que chegámos a Caracas fomos aconselhados a não andar a pé pelas ruas para nossa segurança. Para se ter uma ideia, há 12 homicídios diários nesta cidade. E quem já viu o "Narcos", série original da Netflix, irá ver muitos "lugares comuns". Motorizadas com dois ocupantes sem capacete e muita pobreza na rua. Uma réplica da Colômbia, portanto, País com quem a Venezuela faz fronteira. Deixei a Venezuela com sentimento de pena, pelo facto de ser um País com imensas potencialidades, mas onde a corrupção fala mais alto. E daí haver uma disparidade tão grande entre classes sociais e uma inflacção asfixiante.
Curaçao
Uma ilha. Com mais contras que pontos a favor, naturalmente. Foi uma colónia da Holanda pelo que é usual ver-se muitos holandeses na ilha. Fica a cerca de meia hora de Caracas e não podia ser mais diferente.
Curaçao é sem dúvida um destino turístico. Nota-se bem o investimento em infra-estruturas (i.e. hotelaria) e também no centro da cidade numa tentativa de tornar um destino mais apelativo. Refiro propositadamente o centro da cidade, porque aparte desta zona da ilha, tudo o resto, em redor, é muito similar ao que vi em Caracas. Um pouco melhor, mas igualmente pobre e (quase) abandonado. Ou seja, um pouco diferente das fotos de praia com areia branca e água verde - que há, atenção! Mas..não é só isso que se vê!
Por via de ser um destino de férias dos holandeses, o custo de vida na ilha é substancialmente mais caro que em Caracas. As moedas aceites são o "florim" e o dólar americano e claro que os preços são devidamente ajustados. O hotel em que fiquei hospedado não deixa qualquer saudade. Os quartos mal limpos, a humidade no tecto do WC e uma alcatifa com aspecto de não ser bem limpa desde....que o hotel era novo, ou seja, final da década de 80!
Tive a oportunidade de ir ao centro de Curaçao. Interessante. Salta à vista os edifícios com cores vivas. A razão pela qual isso acontece - e que me venderam - é que houve em tempos um "Governador" (que no caso seria o equivalente ao nosso Presidente da República) uma vez terá dito que sempre que abria as janelas via só branco e que tal o deprimia. Daí, haver as várias cores:

Pessoalmente até consigo achar alguma piada. Notei igualmente uma grande presença de americanos na minha curta estadia. Basicamente, e para estes turistas, trata-se de um destino com bom clima, e com um custo de vida bastante aceitável (para não dizer baixo, tendo em consideração os vencimentos). Para um europeu como eu, e proveniente de um país do Sul da Europa, a realidade não será bem a mesma. Mas mesmo assim, com alguma ponderação é possível passar-se uma boa temporada. Por exemplo, o nosso cicerone disse-nos logo que o hotel em que tínhamos ficado não tinha piada alguma e mais tarde mostrou-nos aquele em que podíamos ter ficado se tivéssemos efectuado a reserva por ele. E...tinha sido bem melhor!! E mais barato.
A viagem foi muito cansativa, especialmente no regresso a Lisboa. Viemos via Miami. Depois de Miami, rumámos a Madrid e depois de Madrid, finalmente Lisboa. Com tudo isto, saímos de Curaçao no Sábado às 1600H e chegámos a Lisboa à mesma hora, mas no dia seguinte (hoje). Amanhã terei de folgar para que o meu organismo recupere desta viagem intensa e para retomar o trabalho!