Já aqui referi que cada vez me sinto mais apartidário. Se quiserem, costumo dizer que não voto nos partidos, mas sim nas pessoas. Não estou sozinho nesta frase. Há cada vez mais pessoas que pensam como eu e que assumem publicamente essa determinação. E como não podia deixar de ser, as eleições para a Direcção do PSD são um bom exemplo disso.
Muita tinta já correu sobre o tema, é certo. A campanha eleitoral terá tido uma duração de 4 meses, mas só senti a mesma no último mês. O que de resto é normal neste tipo de acontecimento.
A liderança do maior partido da oposição é um momento importante. E os portugueses deviam perceber isso. Por várias razões, e nomeadamente, pelo facto das coisas estarem "aparentemente" bem, mas não estão. Se me permitem, o que aconteceu nos últimos anos foi o mesmo que acontece às pessoas que ficam engripadas durante 2 semanas e quando ficam bem, vão fazer a maratona da EDP com chuva e frio. Estavam bem quando saíram de casa. Aparentemente bem de saúde. Mas com o clima invernoso rigoroso, ficam mal. Nada de anormal, até aqui.
Portugal viveu um clima de austeridade até há bem pouco tempo. Para quem não se recorda, estivémos próximo da bancarrota. Só a adopção de medidas impopulares e castradoras como o aumento da carga fiscal, as contribuições extra, a mexida nos escalões do IRS, etc., permitiram que todos nós conseguíssemos ultrapassar ou inverter a tendência negativa e fosse tornado possível o resgate financeiro, ou seja, conseguir que a União Europeia nos emprestasse dinheiro. Facto.
Não vou aqui falar do facto do actual Governo não ter sido sujeito a sufrágio universal - acto eleitoral onde, democraticamente, o povo português vota num partido. Normalmente ganha o mais votado. Não foi o que aconteceu. Mas esse será um pequeno (grande) detalhe.
Naturalmente que é fácil governar quando as pessoas sentem a carteira "mais pesada". Ninguém tem dúvida disso. Mais. Ninguém tem dúvida que a adopção de medidas populares como seja o aliviar (ainda mais) da carga fiscal ou a revisão das pensões, significa mais votos nas urnas. Basicamente estamos a falar dos 2 maiores grupos que votam: população activa contributiva e pensionistas. A fórmula é simples. E também me parece simples e lógico que as pessoas votem naqueles que lhes dão (de novo) a qualidade de vida e não a obliteram, como fez o anterior Governo, no cumprimento escrupuloso de um programa de austeridade assumido ao nível europeu. Mas o ser humano não pensa dessa forma. Pensa, de forma confortável, no imediato. No curto termo. E não no meio ou longo termo.
O que vai acontecer, dizem alguns comentadores políticos neste momento, é que o actual Governo (a geringonça) será um fortíssimo candidato à continuidade ou à manutenção à frente dos desígnios do País. Mais do mesmo. E em menos de nada estaremos numa situação delicada em menos de nada. Mais uma vez, a probabilidade de tal acontecer é tão elevada como o Futebol Clube do Porto alterar a táctica de jogo depois de ter avançado com a teoria peregrina das bancadas em risco de ruir no estádio do Estoril. Vai alterar, naturalmente, porque estava a perder. E porque conhece o jogo adversário. Onde já chegámos! Nota: Não estou com isto a querer dizer que sou a favor da permissão de utilização de bancadas em perigo de ruir - ou que possam infligir ferimentos ou mesmo mortes. Estou apenas e só a dizer que isso devia ter sido verificado antes. Não durante o jogo. E quando a equipa visitante estava a perder. Coincidências, dirão alguns. Talvez. Continuo a não gostar de bola na mesma...
Daí serem importantes as eleições para a liderança do PSD. Para que o maior partido da oposição se possa re-organizar (ou coligar, agora que está na moda). Se possa dotar dos meios e das armas para o combate. Se prepare de forma consistente. Que estude os vários dossiers e que não tenha qualquer problema em discutir os cadernos mais quentes: Administração Interna, Justiça, Saúde e Educação.
É aqui que faz sentido pensar em Rui Rio (RR). Desde logo uma pessoa antipodamente diferente de Pedro Santana Lopes (PSL) em vários aspectos, especialmente na forma de estar e de ser. E isso viu-se bem no 1º debate televisivo. Em que PSL - um animal política de craveira - quase tão bom como aquele 1º Ministro que esteve preso com o número 44 na cadeia de Évora (e que para mim continua a ser a referência em termos de preparação para debates e réplica) ganhou, sem qualquer margem para dúvidas.
Percebeu-se claramente que a dimensão de acção de RR tem sido até agora o Município. Teve a tal questão de ter sido Vice-Presidente do PSD - que se sabe agora não correu assim tão bem quanto possa ter parecido (foi avançado nos debates televisivos, para espanto de PSL).
Já o outro candidato à liderança tem outra preparação e experiência política. Para começar o facto de ter sido 1º Ministro durante uns tempos. Quer queiramos quer não, dá outro traquejo, ainda que tenha sido Sol de pouca dura!
Há contudo algo que ambos têm: legado. No caso de RR, um bom legado. Obra feita. Uma fama que o precede de incorruptível e de luta feroz e determinada contra os interesses instalados - basta ver, por exemplo, que enquanto edil da Câmara Municipal do Porto proibiu as celebrações das vitórias da equipa de futebol da cidade nesta instituição camarária. Quebrou uma tradição longa. E isso valeu-lhe muitas animosidades. Em particular por parte dos poderosos do Norte...
Já PSL tem um passado diferente. Não necessariamente bom. Para começar o facto de ter sido destituído do cargo de 1º Ministro pelo ex-Presidente da República Jorge Sampaio. Ou de ser mulherengo (ainda que daí não venha mal ao mundo)...Mas não abona nada em seu favor junto do eleitorado mais conservador. Outro aspecto que importa reter, penso eu, será relacionado com o fazer o seu mandato, mal ou bem, mas até ao fim. E depois ser avaliado. Outra coisa é interromperem o mesmo por não reunir as condições necessárias à desejável harmonia e continuidade. E percebeu-se bem a melhor (e natural) preparação de PSL face a RR, no 1º debate televisivo. A prosa foi fluida. Assertiva e contundente. Já RR, deu ideia de estar pouco à vontade. E até algo impreparado.
Já o segundo debate foi diferente. Enquanto que PSL ficou ancorado e preocupado com as amizades e almoços que RR frequentou, este preparou-se mais e melhor. E certamente terá sido aconselhado por pessoas próximas a melhorar alguns aspectos na entrevista que vinha a seguir - e notou-se bem que a sua postura foi bem diferente. Mais mordaz, acutilante e cirúrgico. E terá sido isso, aliado ao tal legado que falei anteriormente, que determinou a vantagem subsequente nas urnas.
Na minha opinião, RR é superior a PSL. Como dizia o outro, deixem-no trabalhar. Há muito trabalho a ser feito se se quiser inverter a tendência de voto expectável nas próximas legislativas.