Voltei à carga. É verdade. Há coisa de um mês e meio, dois meses. Activamente à procura de casa para investir umas moedas que amealhei. E as conclusões a que chego rapidamente, não podiam ser piores.
A primeira - e eventualmente a mais importante - é que todas as pessoas estão a vender casas com ouro. É verdade. Falo de muito ouro mesmo. É a única explicação que vejo para que alguém tenha lata para inflaccionar o preço de uma casa a valores exorbitantes. Especulação imobiliária, dir-me-ão alguns. Prefiro apelidar de "período-de-graça-do-sector-imobiliário-e-que-vai-rebentar-não-tarda-nada". Note-se que falo na condição de comprador, ou seja, alguém que tem capacidade neste momento de avançar para a compra de um imóvel (não falo na condição de inquilino, ou seja, de quem quer arrendar, onde naturalmente o investimento inicial será substancialmente mais baixo).
É importante entender a dinâmica do sector imobiliário. Ler um pouco sobre o tema. Ver algumas casas. Debater alguns pontos com agentes ou com promotores comerciais. Perceber do assunto, para que mais à frente se possa então realizar uma aquisição desse imóvel de forma informada.
Graficamente, se me permitem a analogia, penso que pode ser descrito como um quadrado (4 vértices):
Vértice 1: Proprietário (Quem vende)
Alguém que quer vender um bem. Existirá sempre uma razão para tal decisão. Pode ser uma necessidade de mais espaço por exemplo pelo facto do agregado familiar ter aumentado. Por ser consequência de uma necessidade de deslocação em função de um novo desafio profissional. Ou de uma disponibilidade monetária imediata (e aí o preço do bem decresce e um investidor atento às convulsões do sector imobiliário local poderá realizar uma boa compra). Ou ainda, e por último, o aproveitar o actual estado de graça deste sector e tentar a sorte, vendendo a casa por um valor bem superior ao real.
Vértice 2: Imobiliária (Quem medeia)
Entidade a quem é entregue o imóvel. Penso que será mais uma questão de comodismo do que qualquer outra coisa. As pessoas não têm tempo nem paciência para andar a mostrar as suas casas esticando aqui e acoli as suas agendas profissionais. Nem tampouco têm (algumas) interesse em estar a regatear preços. Basicamente - e porque não há almoços grátis - delegam esta responsabilidade às agências imobiliárias que conduzem integralmente o processo de venda dos seus imóveis. Desde a sua angariação (pela agência em si que detectou um interesse de um proprietário em vender o seu imóvel) ou a mesma agência que acolhe na sua carteira de imóveis um novo negócio que lhes é proposto por um certo proprietário. Em qualquer um dos casos, o processo negocial é, como refiro anteriormente, liderado pela imobiliária que, no final do mesmo, receberá uma comissão proporcional ao valor de venda do imóvel. Certamente, e como em tudo, haverão pessoas idóneas e menos idóneas. Essas mesmas pessoas farão o bom nome da instituição a que pertencem. Nota: Nesta minha "senda" reencontrei uma boa amiga que integra uma das mais fortes imobiliárias e com quem tenho trocado algumas ideias. Lá está, no "final do dia" é importante obter informação certa e adequada por forma a poder realizar negócios de forma séria e transparente.
Vértice 3: A Banca (Quem empresta o dinheiro)
Talvez o "actor" mais importante de todo o processo de aquisição de um imóvel. À excepção da minha madrinha, conheço poucas pessoas que consigam "bater a nota" para comprar imóveis com 6 algarismos significativos. A realidade é esta. Hoje em dia, concordarão comigo que qualquer T2 com cerca de 100 m2 em Lisboa custará no mínimo 150k € (às vezes sem obras feitas).
Este gama de valores, reduz (e muito) o número de pessoas que têm esse tipo de montante na conta bancária. Faço naturalmente parte da maioria das pessoas que não tem capacidade para pagar a pronto um imóvel e que tem de recorrer à Banca. E aqui reside o cerne e o grande desafio. Entender a linguagem utilizada pela Banca. Considero-me uma pessoa com alguma inteligência. Consegui a licenciatura, consegui uma pós-graduação, o acesso à Ordem dos Engenheiros (sendo que foi aqui que perdi a minha inocência, naqueles dois dias de exame). Mas a minha inteligência é rapidamente ultrapassada quando se começa a falar em siglas: TAN, TAEG, spread, taxa de esforço, fiadores, etc.
Na altura em que contraí o meu primeiro empréstimo à habitação, há muitos anos atrás, não havia tanto formalismo nem eram solicitados tantos elementos. Nem tampouco havia empréstimos cedidos a 80% ou 85%. Havia empréstimos a 100%. Esse dinheiro possibilitava a compra do imóvel, a realização de obras de beneficiação e ainda o mobilar a casa. Sou desse tempo. Actualmente as coisas não são assim.
Por um lado, por via da austeridade da "troika" e ainda por via do crédito mal parado, passou a haver instruções claras por parte do BdP (Banco de Portugal) para que as várias instituições bancárias se salvaguardem mais e melhor aquando da concessão dos empréstimos. Não me alongarei muito sobre o tema, mas quem contraiu empréstimo há pouco tempo/anos sabe do que falo. Por um lado são necessários mais elementos pessoais que garantam à instituição bancária o pagamento integral do empréstimo (por exemplo, a designação de um fiador para casos em que o empréstimo é concedido em situações limite). A taxa de esforço é calculada da mesma forma, mas algumas instituições são mais rigorosas na avaliação da mesma e subsequente atribuição do montante solicitado e no "pêso" que a mesma tem na decisão de concessão do empréstimo. A idade também conta (65 anos).
Por outro lado, há a inevitável necessidade de cumprimento de objectivos mensais / anuais por parte dessas mesmas instituições bancárias pelo que, não raro, o empréstimo é concedido sem que sejam seguidas na íntegra todas as recomendações do BdP. E é na negociação das condições do empréstimo bancária que reside a arte. Ainda não cheguei lá...mas é a parte que mais me agrada. Poder comparar o que as várias entidades consultadas me oferecem. As melhores condições. Apertar com eles. No final do dia, o que ficar contratualizado é o que será Lei durante a vigência do contrato...donde, é necessário que seja sempre mais favorável para o meu lado.
Vértice 4: Comprador (Quem compra)
O meu vértice. É necessário que haja uma harmonia e entendimento com todos os demais vértices. Em teoria, se a casa for mediada por uma imobiliária, não é expectável o contacto com o "Vértice 1". Contudo, se o negócio fôr realizado entre proprietário (Vértice 1) e comprador (Vértice 4) há uma fortíssima possibilidade de um encontro de valores, leia-se valores de aquisição mais baixos - na medida em que o imóvel não é agenciado e como tal não há lugar ao pagamento de comissões que oneram o valor do mesmo. Contudo, e como referi anteriormente, é importante que haja uma compilação sólida de informação. Sem receios de perguntar. Nenhuma da outras partes - neste caso os vértices - tem interesse em partilhar o máximo de informação. O segredo é a alma do negócio e não creio que qualquer uma dos outros intervenientes tenham interesse em perder dinheiro. Mas claro que as coisas são como são.
A minha experiência neste campo é ainda muito incipiente. Basicamente, passei a assumir uma condição de comprador/investidor de imóveis, quando há dois anos atrás estava longíssimo desta minha nova realidade. Das visitas a casas que já fiz, deparei-me com algumas inverdades passadas pelos vendedores, que por via do meu não conhecimento, não rebati na hora. Gosto de transparência, de verticalidade e de honestidade. Não obstante haver sempre a componente do negócio, tal não tem que necessariamente sugerir opacidade ou parcialidade no negócio. Afinal, todos, em alguma altura da nossa vida, somos compradores de algo. E naturalmente não gostamos de ser "embrulhados". Daí o querer reunir informação e saber em concreto o que envolve a compra de um imóvel nos dias de hoje. Já que é diferente - da noite para o dia - do que envolveu a compra de um imóvel que tive há alguns anos atrás!

