O mais recente acidente aéreo que envolveu um helicóptero do INEM atesta bem o quão voraz pode ser a comunicação social na busca do "furo" jornalístico. Nada contra. Mas que o façam de forma digna e bem informada. Não foi o caso.
Tal como todos os demais portugueses, fui surpreendido pela notícia do desaparecimento de um helicóptero na região Norte de Portugal. E desde o primeiro momento em que vi a notícia, naturalmente acompanhei em permanência todas as actualizações da mesma.
A minha experiência aeronáutica permite-me avaliar as coisas de forma diferente do telespectador comum. Quando refiro "forma diferente", não quero dizer com isto que seja profundamente conhecedor. Mas há toda uma sequência de eventos, uma terminologia técnica, detalhes que sei antecipadamente que terão de ser abordados. Afinal, e nas primeiras horas, tratava-se de um desaparecimento de uma aeronave em território nacional e há um protocolo que tem de ser seguido.
Um dos aspectos que me terá chamado desde logo a atenção foi o facto de, ainda sem sequer se ter descoberto o paradeiro da aeronave e já se falar em mortos. Não é mais do que jornalismo do pior nível. Medíocre.
Convido o/a meu/minha leitor(a), a, conjuntamente, analisar a minha forma de pensar (na medida em que me parece que a mesma faz sentido).
Condições climatéricas
A questão das condições climatéricas em que foi efectuada esta missão de socorro merece um comentário. Este helicóptero estava baseado em Macedo de Cavaleiros. Foi realizado o transporte de uma doente para o Porto com condições climatéricas adversas. Sabe-se que o normal seria, no regresso, realizar uma paragem técnica (para abastecimento) antes de regressar à base. Não foi isso que aconteceu. O Comandante terá pedido ao controlo de tráfego aéreo - por via das más condições climatéricas e da consequente má visibilidade - para realizar o vôo de regresso a baixa altitude. Aqui reside a minha questão. Não havendo necessidade de regressar naquele dia específico à base, e conhecendo as condições climatéricas adversas que conduziram a que tivesse de pedir para voar a baixa altitude - porque razão não decidiu este experiente piloto aguardar até que as condições do tempo melhorassem? Esta parece ser uma questão que nunca será respondida cabalmente. Afinal estamos a falar do carácter subjectivo de avaliação de um piloto bem experiente. Porventura outro piloto, na medida em que não havia urgência no regresso, teria optado por aguardar que as condições climatéricas melhorassem antes de prosseguir com o vôo.
Tempo de resposta
Importará perceber, assim termine a investigação já encomendada pelo MAI (Ministério da Administração Interna), a razão pela qual há 2,00H de hiato de tempo em que não houve resposta a uma emergência. As comunicações com o helicóptero perderam-se por volta das 1830H e o sistema de emergência só é accionado pelas 2015H. Em situações ou eventos em que todos os minutos contam, importa perceber o porquê de (mais uma vez) o sistema de emergência ter falhado.
Localizador de Emergência
Outro ponto que me tem dado que pensar é a questão do "ELT" (Emergency Locator Transmitter) e do qual pouco ou nada se fala. Toda e qualquer aeronave registada no espaço comunitário tem de ter instalado um "ELT". Sem complicações, trata-se de um dispositivo que, para situações de acidente aéreo, transmite numa frequência específica auxiliando na sua localização (e salvamento) dos ocupantes de determinada aeronave. Se há componente ou dispositivo indestrutível, este será um bom exemplo. Imaginem o que é ter de resistir à queda de uma aeronave (meio aquático ou terrestre) e ainda ter de transmitir numa frequência para que as equipas de busca e salvamento o detectem. Curiosamente pouco ou nada se falou neste equipamento. E a "melhor" explicação que ouvi foi que a antena se tinha partido (???). Sem comentários.
Conferências de Imprensa / Protecção Civil
O "centro de crise", usualmente estabelecido neste tipo de infeliz evento, foi criado. Os responsáveis pela busca e salvamento estiveram sempre juntos nas várias conferências de imprensa (também previstas no estabelecimento deste centro de crise) por forma a ir actualizando o ponto de situação. Nota positiva para a forma como o mesmo foi imediatamente criado, desde o "momento zero" e a ponderação nas respostas dadas - quando a comunicação social já falava em mortos, o responsável da Protecção Civil retorquia referindo que a aeronave ainda não tinha sido encontrada. Como que a serenar os ânimos. Nota negativa para o facto deste mesmo responsável não ter nunca tirado o "bivaque" (boina dos militares) durante todas as conferências de imprensa. Ao longo de décadas tenho visto várias entrevistas televisivas e não me recordo de militares com a boina colocada ou mesmo o chapéu da farda. E alguns dos militares da classe de generais. Um detalhe, bem sei, mas que reparei.
Detalhe Mórbido
Há situações em que me envergonho de ser português ou, indo mais longe, de ser humano. Tenho dito ao longo dos tempos, que quanto mais conheço as pessoas mais gosto dos animais. E aqui temos um pequeníssimo exemplo de onde quero chegar. O acesso ao local do acidente foi complicado durante a noite. Muitos foram os voluntários locais (praticantes de todo-o-terreno) que o tentaram, mas que desistiram face às condições de tempo adversas experimentadas naquela noite. O que não se entende é como é que no dia seguinte, quando os acessos foram tornados possíveis e já havia luz natural, já havia peças da aeronave acidentada à venda no OLX. É verdade. Eu vi um anúncio - que terá sido removido entretanto. Mas confirmo que esteve efectivamente publicado um anúncio da tampa do bocal de abastecimento de combustível da aeronave. Incrível o mórbido da situação e a falta de respeito pelo próximo que fica bem patente neste comportamento de algumas "pessoas".
Papel da Comunicação Social
Tenho já dito que há muitos maus profissionais na comunicação social. Na generalidade das vezes, há detalhes que não são explorados e que podem tornar a notícia mais fidedigna. O que interessa é desde o primeiro momento - sem olhar a meios - garantir o "furo" jornalístico. Temos em Portugal verdadeiros conhecedores do sector aeronáutico/emergência/helicópteros que poderiam ter certamente contribuído com a partilha do seu conhecimento e evitando-se que a notícia fosse fraca.