Nos últimos Domingos, e com uma regularidade (quase) semanal, tenho feito umas caminhadas pelo fresco da manhã com um dos meus melhores amigos. Aquilo que começou por ser uma caminhada num Domingo específico, rapidamente se transformou numa rotina, e já temos alguns quilómetros nestas pernas. A andar e a conversar.
Aproveitamos este tempo juntos para, não só pôr a conversa em dia - e já vai sendo muita - como também para eu assumir o papel de confidente/psicanalista em quem este meu amigo deposita muitas das suas questões existenciais. Em particular as relacionadas com a sua filha de 10 anos.
Não me incomoda absolutamente nada que o faça. Muito pelo contrário. Sinto que tem essa necessidade. A questão é que poderei não ter comigo todos os dados para poder, com propriedade, ajuizar e opinar de forma construtiva. Pelo meio fica uma relação afectiva conturbada que teve, um passado (dele) marcado por algumas situações menos boas que conduziram naturalmente a alguma insegurança da, na altura, cara metade. E uma criança. Até sou capaz de entender todo este "puzzle".
Tenho para mim que os filhos são para a vida. E que, como tal, é imperioso que haja um (obrigatório) entendimento entre os pais. Mais do que o "entendimento-básico-para-tratar-dos-assuntos-relacionados-com-os-filhos". Tem de haver conversa. Debate de ideias. Por outro lado, é importante não esquecer que haverá sempre, mas sempre a questão monetária em que um dos pais sentir-se-á sempre mais prejudicado. E tudo isto importa ser debatido para que, no final do dia, as crianças não apanhem por tabela.
Neste caso específico, estou à vontade para falar porque conheço este meu amigo desde há mais de 30 anos. É daqueles que cresceu comigo e com quem passei muita coisa. Umas melhores e uma ou outra pior. Refiro isto porque sei que é da minha criação. Da minha geração. Vivemos as mesmas experiências, na mesma altura. E sei bem como é aquela cabeça estruturada.
A mãe da criança penso ser um pouco mais nova que nós. E substancialmente mais rica que eu. E que eventualmente o meu amigo. Refiro isto, necessariamente, porque é daqueles casos em que dinheiro não significa necessariamente melhor educação ou saber estar. Conheço a mãe da criança circunstancialmente e de ter estado com ela uma ou duas vezes. E a criança em si (estragada com mimos), estive uma vez. Os desabafos que este meu amigo tem comummente comigo são o reflexto de situações em que há, notoriamente, uma choque de formas de educar. E claro, o normal e expectável choque geracional. A filha consegue com muita facilidade ter coisas que nem o pai não tem e/ou dificilmente teria. E não sabe dar valor. Talvez por não ter sido educada nesse sentido. Enfim. Os passeios matinais irão continuar. E as confidências idem. Afinal, é esse o papel de melhor amigo.