Tenho acompanhado - penso que à semelhança do que tem acontecido com todos os portugueses nos últimos dias - com atenção a greve dos camionistas de matérias perigosas. Para começar porque se perspectiva que venha a parar o País. E para terminar porque quis desta vez, contrariamente ao que aconteceu no passado recente, perceber melhor as motivações dos sindicatos dos motoristas e que estão subjacentes à realização desta greve.
Importa, para início de partilha, relembrar que há 3 partes interessadas: camionistas, patrões e claro, o Governo.
Camionistas: Na minha opinião, é o primeiro grupo que perde. Porquê? Porque tem como representantes sindicais pessoas que são inflexíveis e que acredito, não representam efectiva e genuinamente os interesses desta classe. Preferem defender a sua agenda pessoal até às últimas consequências. Por outro lado, os camionistas, da maneira como as negociações com os patrões estão a evoluir até ao momento em que escrevo estas linhas, não vão conquistar absolutamente nada mais do que aquilo que foi acordado com os mesmos no início desta semana. Com efeitos, pasme-se, daqui por um e dois anos, respectivamente. Ou seja, a greve que se fala (que começa às 2400H de manhã, é uma greve que será realizada na sequência de direitos já acordados e com as datas de efectividade que refiro acima). Outro aspecto ou argumento utilizado por estes profissionais - assisti a um debate durante a semana passada - é a distribuição da riqueza gerada pela empresa. Que há empresa que têm muito lucro e praticam pouco a distribuição do mesmo. E que isso resolveria esta questão reivindicada. Este argumento peca por ser perigoso e reflecte o desconhecimento de disciplinas da contabilidade ou mesmo da vontade da Gestão de Topo das empresas. O facto da empresa ter lucro não significa que o mesmo tenha de ser distribuído equitativamente pelos empregados. Onde está isso escrito? Se assim fosse, como haveria dinheiro para comprar equipamentos novos ou investir em infra-estruturas? Ou alguém imagina que isso acontece por obra do acaso? É importante perceber que o empregador não tem obrigação alguma para com o empregado, além de pagar o devido salário e garantir as condições laborais acordadas contratualmente. Já o recíproco é aplicável. O empregado tem o dever de honrar o também acordado contratualmente. E claro, ser devidamente ressarcido do período de tempo que gasto em horas extraordinárias.
Patrões: Claramente preocupados com todo o desenrolar e claro, do desfecho deste diferendo. Mas mostraram abertura e boa-fé ao concederem os aumentos salariais para o ano que vem e para o ano seguinte. Poucas pessoas entendem que o grosso da nossa economia depende de mercadoria (perigosa ou não) transportada via rodovia. Com isto, quero dizer que sendo este transporte bloqueado ou interrompido, ou realizado em menor escala, vai ter como consequência imediata que em menos de nada se sinta o impacto na nossa economia. Com tudo isto, os patrões não deixam de ficar bem vistos pela opinião pública na medida em que não cederam aos intentos dos sindicalistas. Demonstraram firmeza e tentaram, propondo via negociação, chegar a um consenso. Sem que tal fosse aceite pelos camionistas.
Governo: O claro e mais que expectável vencedor. Consegue, sem grande esforço, manipular a opinião pública mostrando boa preparação para a greve e claro, capitalizar votos para as eleições de Outubro e com uma aprovação maciça da opinião pública. Tenho de tirar o chapéu à habilidade com que tem gerido tudo. E a dois meses das eleições, gerir este evento com mão de ferro, é seguramente um passo de gigante na direcção da maioria absoluta. A horas de ser iniciada a greve, o Governo criou um grupo de trabalho para gerir esta situação de emergência. Ministros que estavam (e deixaram de estar) em férias constituem esse grupo. Mobilização de militares e polícias (inclusivé polícias à paisana) para que seja garantida a ordem pública e os portugueses possam ter normalidade nas suas vidas. Foi mobilizado o corpo de intervenção da PSP, o grupo de operações especiais PSP e ainda polícia de choque. Nada falta. Foi dada formação às autoridades para poderem conduzir os camiões de transporte de matérias perigosas, caso haja necessidade. "De cima", veio a ordem de disponibilidade total. Veremos se a greve acontece. E a acontecer, se dura. Esperemos que não. A bem de Portugal.
