E eis que somos chegados ao dia que importa para a classe política. Dia de eleições legislativas.
Acompanhei de forma distante - mas atenta - a campanha eleitoral para as eleições legislativas que têm lugar este ano. Cheguei a escrever sobre isso mesmo há umas semanas atrás.
Tenho para mim que não existe uma fórmula milagrosa que resolva o problema de todos os portugueses. O actual Governo vive uma época boa, sendo que deriva directamente de um período em que foi realizado um resgate financeiro e foram pedidos - pelo partido político legitimamente eleito - sacrifícios aos portugueses. Uma analogia bem simples que consigo imediatamente pensar e que reflecte bem o que aconteceu nos últimos anos, é imaginarmos alguém que esteve durante algum tempo pendurado nalguma coisa (um galho, se quiserem) para não cair num precipício. E é quando "aparece uma mão" que o puxa esse alguém para cima. Explicando a imagem: o precipício foi onde Portugal esteve, devido à crise financeira. O "galho" foi aquilo a que os portugueses se agarraram. Foram as economias de uma vida e foram também as medidas implementadas pela "troika". Foram as políticas de contenção e políticas de austeridade determinadas por quem nos emprestou dinheiro. E claro, a "mão" era da geringonça. Parece-me óbvio que ao ser agarrada essa mão - que salva da queda para o precipício - e ao olhar-se para cima e ver-se esta coligação de partidos de Esquerda, de imediato se pensa, com facilidade, que a Direita é a culpada de termos sido atirados para o precipício. Que é a culpada de todo o infortúnio que aconteceu em Portugal desde o tempo de D. João V (não sei porque fui buscar este exemplo, mas também não interessa nada para agora).
Contra tudo e todos, o modelo da geringonça funcionou durante estes últimos anos. Uma coligação que, com o tempo, mostrou ser possível ter bons resultados. Ou pelo menos, permitiu respirar de novo. Sendo que a geringonça teve como timoneiro o secretário geral do PS. Importa referir que a política tem destas coisas. Foi este mesmo secretário geral que, a alguns meses do dia de hoje, se quis distanciar dos demais partidos que constituem a geringonça. E começou a sacudi-los. A partilhar na comunicação social uma desejável governabilidade (a solo) com uma maioria absoluta - na altura era ajudado pelas sondagens. Sondagens essas, na altura, que apontavam precisamente nesse sentido, perspectivava-se uma maioria absoluta fácil e para a qual também contribuía também (e de forma decisiva) o estado comatoso do maior partido da oposição, derivado de questiúnculas internas que, durante os últimos meses, marcaram o mau ambiente interno daquele partido político e fragilizando de forma inegável o poder de fogo do seu presidente.
Quando todos pensavam que a vitória estava garantida, foi lançada a bomba atómica na campanha destas legislativas. O caso Tancos. Um assunto sem fim à vista. Sem que haja uma culpa clara. Com uma confusão de quem sabia e não sabia. Uma confusão de todo o tamanho. Creio que não será o facto do caso em si. Há outros assuntos igualmente importantes e fracturantes: Professores, Enfermeiros, BES, motoristas de substâncias perigosas que quase pararam o País, a TAP (que vi falarem muito timidamente) entre outros. É sim o momento em que o assunto é trazido de novo à baila. E, ainda que o presidente do maior partido da oposição se tenha tentado demarcar deste assunto, chegando a aludir ao facto do não oportunismo político, o que é certo é que não o conseguiu fazer de forma credível. E sem querer e sem saber como, capitalizou votos. E instava instalado o caos naquela harmonia que (aparentemente) existia e que levaria tranquilamente à maioria absoluta. Este "virar da mesa" foi imediatamente reflectido nas intenções de voto dos portugueses, e se o maior partido da oposição se demarcou da questão do oportunismo político, o mesmo não aconteceu com outros partidos de direita, que, encontrando-se moribundos (após os péssimos resultados nas últimas europeias, com o complemento da falta de carisma da Direcção, nada tinham a perder em agarrar-se a este assunto qual tábua de salvação. Infelizmente, o estado em que se encontra este partido é tão débil que nada conseguiram. Nada mesmo. Muito pelo contrário. O que até poderá custar uma pesada derrota e um entregar a pasta por parte de quem dirige este partido político.
Estou seguro que o actual Governo ganha, mas sem maioria absoluta. Significa isto que, já hoje, após terem sido conhecidos os resultados eleitorais, será reatado o namoro com aquele partido político de esquerda que tanto criticou e de quem se pretendeu o distanciamento. Analogamente, esse mesmo partido de esquerda aceitará o reatar do namoro e sai muito fortalecido e vitorioso deste acto eleitoral sendo, penso eu, que até será uma das forças políticas que, à partida, terá um dos melhores resultados de sempre.
O que não tenho dúvida alguma é que aquilo que houve nos últimos anos, não irá existir mais. Governar sem maioria absoluta e depois de terem sido ditas tantas coisas que fragilizaram a relação entre o partido do Governo e quem o apoia..só trará instabilidade. E muita negociação. Numa altura em que tudo indica que se avizinha uma nova crise económica. A ver vamos. Agora vou andando, que quero preparar-me para ir cumprir com o meu dever cívico!